segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Mostra Paralela: Elas Por Trás das Câmeras


A II Semana de Antropologia da UFS, durante os quatro dias do evento, irá contar com a 1ª edição da Mostra Elas Por Trás das Câmeras, em parceria com o Grupo de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas – GERTs.

Em 2016, foram lançados 142 longas-metragens no circuito comercial do país e apenas 19,7% das produções contaram com mulheres na direção. Se olharmos para a intersecção com raça, o número é ainda mais alarmante: apenas duas mulheres negras assinaram a direção de um filme lançado comercialmente na história do cinema brasileiro: Adélia Sampaio (Amor Maldito, 1984) e Camila de Moraes (O Caso do Homem Errado, 2017).

As demais funções técnicas também são ambientes dominados por homens brancos, com especial atenção à fotografia. Segundo pesquisa de Nina Tedesco (2016), apenas 4% dos longas brasileiros de ficção lançados entre 1984 e 2014 foram fotografados por mulheres.

Ao compreender que o primeiro passo para mudar esse cenário é discutir sobre o tema, a Mostra Ela por Trás das Câmeras busca se unir aos diversos esforços que estão sendo realizados por todo o país e visibilizar produções audiovisuais contemporâneas que contam com mulheres na direção, além de outros departamentos, como fotografia, arte, montagem e som.

A programação da mostra irá exibir curtas-metragens – um formato que possibilita mais pluralidade de vozes – dirigidos por mulheres, grande parte sobre e com personagens mulheres de distintas realidades, além de realizar debates sobre a temática após as projeções.

Coordenação e curadoria: Danielle de Noronha e Frank Marcon
Comissão Organizadora: Danielle de Noronha, Élida Braga, Erna Barros, Frank Marcon e Raissa Freitas
Arte: Erna Barros

PROGRAMAÇÃO*:


Dia 27 de novembro | 15h  
A produção no âmbito do curso de audiovisual da UFS

Riots in Brazil
– Liss Belfort e Lilian Oliveira | SE (6’12’’)
Cenas para Paganini – Luna Safira | SE (13'34")
O corpo é meu
– Luciana Oliveira | SE (24’)

+ Debate com as realizadoras e com a professora Maira Ezequiel (DCOS/UFS)

Dia 28 de novembro | 15h  
Mulheres negras no audiovisual

Rainha – Sabrina Fidalgo | RJ (30’)
Peripatético – Jéssica Queiroz | SP (15’)

+ Debate com a presença de Raissa Freitas (GERTs/UFS), Yérsia Souza (GERTs/UFS) e Jéssica Queiroz

Dia 29 de novembro | 15h
Mulheres e cinematografia

A passagem do Cometa – Juliana Rojas | SP (21’)
Sentido
– Nina Tedesco e Pedro Curi | RJ (18’)

+ Debate com a presença de Danielle de Noronha (GERTs/UFS), Damyler Cunha (DCOS/UFS) e Nina Tedesco (CINEVI/UFF)

Dia 30 de novembro | 10h  
O audiovisual fora do eixo Rio-São Paulo

Fervendo – Camila Gregório | BA (16’)
Simbiose – Júlia Morim | PE (19’)
Uma cidade muda não muda – Erna Barros | SE (19’)

+ Debate com a presença de Erna Barros (GERTs/UFS), Júlia Morim e Yanara Galvão (PPGCINE/UFS).

Clique aqui e conheça as sinopses e fichas técnicas dos filmes.


*(programação sujeita a alteração)


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Uma cidade muda não muda





A experiência de grafiteiras no espaço público a partir da perspectiva de uma cidade hostil à presença das mulheres. (Direção: Erna Barros).

Curta realizado junto à pesquisa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal de Sergipe-UFS intitulada "UMA CIDADE MUDA NÃO MUDA: A PRESENÇA DAS MULHERES NO ESPAÇO PÚBLICO ATRAVÉS DA PRÁTICA DO GRAFFITI" (em andamento - PPGS/UFS 2016-2020). Autora: Erna Barros
Orientador: Frank Marcon

Direção e edição: Erna Barros
Imagens Erna Barros e Ewerton Nunes

domingo, 3 de junho de 2018

“Tempo e espaço”, de Zygmunt Bauman - Resenha


Por: Laise Maria da Silva

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, pp. 107-149.

No texto de Bauman sobre “tempo e espaço”, o autor inicia o capítulo refletindo sobre a categoria espaço, a partir do projeto do arquiteto inglês George Hazeldon, que consistia na construção de Heritage Park, uma cidade planejada.

Segundo o sociólogo, o projeto de Heritage Park consistia em uma fortaleza, que apesar de ser segura contra ataques externos (assaltos, vandalismos, etc.) sufocava internamente a comunidade que ali residia. Desta forma, esse projeto queria vender a ideia de uma sociedade perfeita, que vivesse em harmonia, onde o “outro” (vagabundo, assaltante, etc.) poderia ser evitado. Contudo, isso acabava também reprimindo os próprios moradores.

Com base no pensamento de Sennett, Bauman pondera que o que garante uma convivência com o mínimo de harmonia é o que Sennett chamou de “civilidade”, e para que isto possa acontecer faz-se necessário um ambiente civil, promovido por espaços públicos. Espaços esses que estão cada vez menos civis.

No decorrer do texto, Bauman exemplifica algumas categorias de espaços que são públicos, mas não civis. Como primeiro exemplo, ele cita a praça “La Défense” em Paris, que de acordo com o mesmo, este espaço é resguardado e nada convidativo para que os pedestres sentassem nos bancos e socializassem.       

A segunda categoria, ressaltada pelo sociólogo, é a dos indivíduos enquanto consumidores, que frequentam espaços como shoppings, cafés, etc. Sendo o objetivo dos que frequentam esses espaços uma experiência individual, de comprar, e de não interagirem entre si.

A terceira categoria que Bauman destaca é a dos não-lugares, que o mesmo define como sendo as esperas nos aeroportos, os transportes públicos e os quartos de hotéis, que são responsáveis por anular qualquer contato entre os indivíduos.

Por fim, a última categoria que o autor salienta são os espaços vazios, que segundo ele existem dois tipos, os restos arquitetônicos, como bairros pobres, cortiços e moradias improvisadas, e os criados a partir da própria estrutura cognitiva das pessoas. Sendo assim, conforme Bauman, as quatro categorias são responsáveis por atuarem em uma frente única, o que anula qualquer tipo de interação.

Com relação ao tempo, o sociólogo salienta que a modernidade foi responsável por inaugurar a história do tempo. Segundo o mesmo, foi através de técnicas e tecnologias criadas pelo homem que a relação sujeito/tempo foi modificada. Como exemplo dessa mudança, Bauman destaca a inovação nos meios de transportes, o que possibilitou o encurtamento no tempo de viagem, das correspondências, etc.

É importante destacar que o autor compreende o tempo como um elemento que pode ser manipulado, corrompido e encurtado, de acordo com aqueles que estão no domínio. O sociólogo também salienta que a percepção de tempo se modificou com os avanços tecnológicos, o que possibilitou que informações percorressem distâncias quilométricas em segundos.

Bauman enfatiza que um dos fatores de dominação do tempo é a previsibilidade, pois, sendo o mesmo instantâneo, torna-se assim imprevisível, e aqueles que conseguem prevê-lo, têm seu domínio. Em suma, o sociólogo explica que, devido ao fato dos dominados não aproveitarem a instantaneidade do tempo, os mesmos acabam presos às suas próprias limitações (tecnológicas, financeiras, etc.).

sábado, 21 de janeiro de 2017

Estéticas y Transiciones (click)

Entre los distintos modos como la ciudad es experimentada en la contemporaneidad, algunos pasan por la contestación de los usos normativos de los espacios considerados públicos, por parte de los  jovenes que la viven en su dia a dia y la reinvindican como lugar de sus agencias, del encuentro, de la linguagen, de la expresion, de la comunicación, de la política, del trabajo y del ócio. La ciudad si hace el suporte de las intervenciones estéticas y de las experiéncias de los estilos de vida ligados a los modos del agir (como patinar, bailar, cantar y dibujar) através del skate, del baile, de la música y de la arte de la calle. El gusto, la satisfación, las amizades, los conflitos, las redes de relaciones y la condición de transición hacen parte de sus experiéncias cotidianas. Este vídeo fué elaborado como resultado de investigaciones etnográficas realizadas durante el año de 2016, na ciudad de Barcelona - ESPANA.

Vídeo Legendado em Português

Estéticas e Transições

Entre os diferentes modos como a cidade é experimentada na contemporaneidade, alguns passam pela contestação dos usos normativos dos espaços considerados públicos, por parte dos  jovens que a vivem no seu dia a dia e a reinvindicam como lugar de suas agências, do encontro, da linguagem, da expressão, da comunicação, da política, do trabalho e do ócio. A cidade se faz suporte das intervenções estéticas e das experiências dos estilos de vida ligados aos modos do agir (como patinar, dançar, cantar e desenhar) através do skate, da dança, da música e da arte na rua. O gosto, a satisfação, as amizades, os conflitos, as redes de relações e a condição de transição fazem parte das suas experiências cotidianas. Este vídeo foi elaborado como resultado de pesquisas etnográficas realizadas durante o ano de 2016, na cidade de Barcelona - ESPANHA.

terça-feira, 24 de maio de 2016

A situação atual

GEERTZ, Clifford; RIBEIRO, Vera (Trad.). A situação atual. In: Nova luz sobre a antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.


Daniela Moura Bezerra Silva (PPGS/UFS)

            No capítulo cinco da obra Nova Luz sobre a antropologia, Clifford Geertz (2001) se propõe a discutir a situação atual da antropologia, o que faz ao retomar algumas das questões que surgem com a própria delimitação desse campo de estudos e ao analisar os caminhos que esta vem a seguir no decorrer dos anos.
            Inicialmente, o autor nos lembra que a antropologia foi formada como uma espécie de coletânea de outras disciplinas, um fator que contribui para preservá-la como uma área descentrada. Esse, contudo, não configura seu único problema, existe uma dificuldade ainda maior, a que chamou de “desaparecimento do objeto” (P.88). “Os ‘primitivos’, mesmo dos tipos que celebrizou Boas, Mead, Malinowisky e Evans-Pritchard, são um patrimônio meio desgastado” (GEERTZ, 2001. 89). O que Geertz quer dizer é que não podemos mais falar de uma única temática de trabalho, não há pesquisa isolada.
            Citando o trabalho de Sahlins sobre os havaianos no século XVIII, Geertz apresenta uma importante reflexão a respeito da condução de nossas análises de campo. Para ele, falar sobre aquilo que não foi dito seria o mesmo que teorizar sobre a consciência do outro, o que nos leva aos seguintes questionamentos: “Como entender as práticas culturais que nos são estranhas e ilógicas? Quão estranhas são elas? Quão ilógicas? Em que reside a razão, precisamente?”(GEERTZ, 2001; 99). A  partir da exposição de autores e correntes, a preocupação do autor é chamar a atenção para uma discussão moral sobre o trabalho do antropólogo.
            No ultimo tópico do capítulo, Geertz (2001) faz críticas a determinadas posturas das Ciências Sociais – e da ciência de modo geral – uma delas ele chama de universais.  “A maioria dos universais é tão geral que não tem força ou interesse intelectual, é uma banalidade a qual faltam minuciosamente ou surpresa, ou exatidão ou revelação, e que, portanto, tem pouquíssima serventia” (p.125). Para ele, buscar o caráter universal das coisas acaba por deixar de lado o que é realmente produtivo.  Ele chega a mesma conclusão no que diz respeito as generalizações, para o autor, precisamos considerar que trabalhamos com probabilidades, ou seja, uma tese formulada a partir do estudo de uma determinada sociedade que pode não ser aplicada a outra – esta outra é capaz, inclusive, demonstrar uma postura completamente distinta.
            Notamos, portanto, que Geertz apresenta como preocupação não criar modelos fechados e arbitrários de análise, além disso, o autor faz críticas duras a antropologia e seus rumos que por vezes não percebe o quanto obsoleto determinados termos e posturas se tornaram.

            

quarta-feira, 2 de março de 2016

Resenha Anti anti-relativismo

GEERTZ, Clifford. Anti anti-relativismo. In: Nova luz sobre a antropologia.  – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
Élida Damasceno Braga [1]
elidabraga74@gmail.com


Numa proposta incisiva, Geertz inicia o texto com a tarefa de “destruir um medo”, a saber, do relativismo cultural. Nele, o autor aponta para a forma equivocada de contrapor o relativismo, rejeitando a mesma sem, no entanto, comprometer-se com o que está sendo rejeitado (p.48). Assim, ideia principal do texto está na crítica ao anti-relativismo.
Geertz (2001) observa através de uma série de autores citados que os ataques a abordagem relativista não sugerem muita clareza sobre o assunto, haja vista ter uma tendência absolutista, ora vendo o relativismo equiparado ao niilismo, ou seja, uma redução a nada, ora como algo desprovido de um posicionamento político. O autor adverte que à teoria antropológica não pode ser atribuída uma mensagem de relativismo e que o argumento de que esta é “contra o absolutismo no pensamento” está nos dados antropológicos obtidos nas diversas pesquisas e não por inclinações relativistas. Isso, segundo Geertz (2001) “ não passa de mais um mito a confundir toda essa discussão” (p.49).
A ideia de que as opiniões e costumes de onde vivemos é o critério racional válido, possibilitou avanços no campo antropológico, discussões e posicionamentos que ora se alinham, ora se contrapõem. Para Geertz (2001), o relativismo e o anti-relativismo são formas de se responder às questões que afetam a percepção das coisas.
O autor segue sua argumentação apresentando o pensamento de outros autores. De modo que, ao relativismo cabe a preocupação de não estarmos tão focados em nossa própria sociedade, de não sermos tão provincianos. Enquanto aos anti-relativistas cabe à preocupação de que a postura relativa que se deriva das culturas faça com que essa visão limitada seja empecilho de uma maior comunicação, assim como a incapacidade de realizar críticas interculturais. Ele destaca ainda que há um medo exagerado e que este foi se instalando entre os antropólogos. Medo de que o foco na diversidade, na diferença,

[…]possa acabar deixando-nos com pouco mais a dizer senão que nos outros lugares as coisas são diferentes e que a cultura é o que a cultura faz. Esse medo intensificou-se tanto, na verdade, que nos conduziu por rumos sumamente conhecidos, na tentativa, a meu ver mal concebida, de aplacá-lo. (GEERTZ, 2001, p. 54)

Na verdade, não se trata, segundo o autor, de defender o relativismo, mas sim a forma como o anti-relativismo se apresentou, esta é que foi mal elaborada. O foco se intensifica, ao invés de traçar inúmeras proposições de diversos antropólogos contemporâneos, sobre as questões da “Natureza Humana” e da “Mente Humana”, as quais o autor julga como pontos importantes dessa discussão, ou seja, historicisismo radical x empirismo primitivo. Para o autor, a questão principal está em como entender, analisar e interpretar fatos que, na verdade, são indiscutíveis.
Bem, nesse momento do texto aparecem os movimentos que concebem a ideia de cultura. A concepção naturalista de um lado e do outro a concepção racionalista. Estas, segundo Geertz (2001), possuem formas bastante diversificadas, não concordando entre si a não ser na caracterização geral. Então, numa tentativa de “banir o espetáculo do relativismo” o que aparece é um empreendimento desordenado de esforços, cada qual visando interesses e direções próprias em defesa de suas causas. Vale destacar aqui que este autor possui uma linguagem muito particular, na qual envolve sutileza e ironia, deixando bastante evidente quando arremata um pensamento com “ o pecado pode ser um só, as propostas de salvação são muitas”. Ele reforça ainda que sua crítica recai sobre a forma exagerada como se opõem ao relativismo e não aos programas de pesquisas que se ligam às correntes que fazem essa crítica (GEERTZ, 2001, p. 55).
O texto adentra um pouco mais no âmbito da Natureza Humana para o qual o autor redige severas críticas, ora ao determinismo biológico, ora às imposições advindas dos juízos culturais, bem como a legitimação de malabarismos conceituais e uma recorrência ao funcionalismo como amparo anti-relativista. O autor acrescenta também que a introdução da ideia de desvio, vista a partir do afastamento de uma norma inseparável, é algo abominável, haja vista que tais argumentos são forjados no fato de que a natureza humana independa do contexto (GEERTZ, 2001, p. 60).
Com relação a questão da Mente Humana, Geertz é mais sucinto, como ele mesmo se coloca. A tendência é a mesma de ver a como superficial a diversidade e como profunda a universalidade. O que difere da questão da Natureza  Humana é que esta aponta os problemas para o relativismo moral, enquanto a outra aponta para o relativismo conceitual. Esse panorama faz com que as atenções se voltem para as concepções de “desvio social” e “pensamento primitivo” seguindo as duas orientações. O autor explica ainda que há uma diversidade de perspectivas e que estas trazem contribuições para a análise da cultura e sobremodo o nosso modo de pensar. Assim, a questão da Mente Humana propõe o desarme da diversidade cultural, bem como a desconstrução da alteridade acontece na Natureza humana. No entanto, existe mais profundidade nessa discussão que a torna bem mais ampla do que apenas os que estão em debate nos parâmetro relativistas. Assim, "Examinar dragões, não domesticá-los ou abominá-los, nem afogá-los em barris de teoria, é tudo em que consiste a antropologia. [...] Tranquilizar é a tarefa dos outros, a nossa é inquietar" (GEERTZ, 2001, p. 65).
Geertz (2001) acredita que a disponibilidade para mudanças provoca inquietações necessárias ao avanço da ciência. Que a antropologia tem em seu vanguardismo o fato de que “fomos os primeiros a insistir em que vemos a vida dos outros através das lentes que nós próprios polimos e que os outros nos veem através deles”. Para finalizar, o autor acrescenta que seria lastimável e que não é possível um recuo a essa altura, diante de tantos avanços no sentido, significado e percepção dentro de um contexto, para algo superficial em torno do “tem que ser assim”.
Em suma, trata-se de um texto inquietante, provocador, com um vocabulário imprevisto. Suas ideias servem de instrumento para uma reflexão e, para tanto, faz-se necessária uma atenção especial, pois em um “piscar de olhos” podemos perder o foco e direções da leitura, bem como da interpretação, tamanha profundidade das ideias apresentadas pelo autor em torno de seus argumentos.


[1] Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFS.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Resenha "Do ponto de vista dos nativos": a natureza do entendimento antropológico.

GEERTZ, Clifford. Do ponto de vista dos nativos: a natureza do entendimento antropológico. In: O Saber Local.
                                                                                                Eline Limeira dos Santos[i]
                                          Mara Raissa Santos Silva e Freitas[ii]        

            O texto “Do ponto de vista dos nativos”: a natureza do entendimento antropológico procura interpretar o significado da ação para os nativos a partir da categoria da ação simbólica onde ele  onde busca compreender as representações que a sociedade faz de si e do outro com base nos significados simbólicos imprimidos na noção do eu. Neste sentido, Geertz procura compreender  o significado da ação dos nativos a partir desses, relativizando o olhar sobre o significado da ação do homem.  
             Citando o grande burburinho causado com a divulgação dos diários de campo de Malinowski, realizado por sua esposa também antropóloga é que Geertz inicia o texto, apontando que a discussão se concentrou em detalhes não essenciais, ignorando a questão mais importante que o livro continha, deixando de lado uma questão epistemólogica que o livro levanta, além de outros pressupostos.
Para ele, a questão que o diário introduz, com uma seriedade que talvez só um etnógrafo da ativa possa apreciar é: “como é possível que antropólogos cheguem a conhecer a maneira como um nativo pensa, sente e percebe o mundo?” (p.86). Segundo Geertz é necessário que os antropólogos vejam o mundo do ponto de vista dos nativos, para ele a voz de Malinowski do túmulo tornou a questão um dilema humano que passou a ser mais importante que o profissional, e esse tem sido um problema bastante discutido na antropologia nos últimos anos.
Desta forma, questionando o caráter dualógico da formulação do problema da antropologia X em oposição a Y,  ele coloca que a forma mais simples e direta de colocar a questão é, talvez vê-la nos termos de uma distinção formulada pelo psicanalista Heinz Kohut para seu próprio uso que são os conceitos de: experiência próxima e experiência distante (p.87).
A definição de experiência próxima é mais ou menos o que alguém usaria para naturalmente e sem esforço  definir aquilo que seus semelhantes veem, sentem, pensam, imaginam. E que ele próprio entenderia facilmente, se outros utilizassem da mesma maneira. De acordo com Geertz, as pessoas usam os conceitos de experiência próxima espontaneamente, e as ideias e as realidades que elas representam estão naturalmente unidas.
Já a definição de experiência distante é aquela que os especialistas de qualquer tipo utilizam para levar a cabo seus objetivos científicos, filosóficos e práticos (p. 87). Nas pesquisas esses conceitos são empregados em maior ou menor grau, tornando uma questão de grau e não de oposição, por que na antropologia a  diferença não é normativa, podendo-se afirmar que um dos conceitos não é melhor que o outro. O etnógrafo não pode limitar-se a nenhum dos conceitos. A verdadeira questão relaciona-se com os papeis que os dois tipos de conceitos desempenham na análise antropológica.
Geertz afirma que a seu ver o etnógrafo não percebe aquilo que seus informantes percebem, o que ele percebe e com bastante insegurança é o com que, ou por meios de que ou através de que os outros percebem (p.89).
A experiência próxima e a experiência distante devem estar em sintonia para que o pesquisador possa “captar” conceitos de forma eficaz e esclarecedora. No entanto essa não é uma tarefa fácil, e que o importante para o pesquisador é descobrir o que os nativos acham que estão fazendo. 
A partir desses pressupostos o autor  cita  suas pesquisas com as sociedades Javanesa, balinesa e marroquina para mostrar de certo modo como esses conceitos são empregado, analisando particularmente a definição de pessoa .
Se intitulando como um etnógrafo de significados e símbolos, Geertz afirma que descobrir o que é uma pessoa na visão de algum grupo de nativos, traduz em um movimento de  vai  e vem entre duas perguntas que faz a si mesmo: Como é a sua maneira de viver de um modo geral? E Quais são precisamente os veículos através dos quais esta maneira de viver se manifesta? Chegando dessa forma a uma espiral semelhante com a noção de que eles consideram o eu como uma composição, uma persona, ou um ponto em uma estrutura.
O autor afirma que para se chegar a essa compreensão vai depender de uma habilidade para analisar seus modos de expressão, ou sistemas simbólicos, e o sermos aceitos contribui para o desenvolvimento desta habilidade.
Dessa forma, começa o seu relato propriamente etnográfico, citando primeiro a sociedade Javanesa, definindo que o significado de pessoa para os javaneses, eram dispostas em dois conjuntos contrastantes, que tinham como base a religião (dentro X fora; refinado X vulgar) esses termos não são o significado exato, mais na verdade ele pretendia mostrar que como um conjunto elas formavam uma concepção específica do eu que, longe de ser simplesmente teórica, era a concepção através  da qual os javaneses realmente se viam uns aos outros e também a si próprios. Ao longo do texto o autor aponta exemplos de como ele conseguiu analisar os dados e defini-los como uma experiência próxima e uma experiência distante. Seguindo o seu relato com Bali e depois o Marrocos.
Para concluir esse capítulo volta para a sua questão inicial que é: o ponto de vista dos nativos.Se pergunta se ao descrever o ponto de vista dos nativos em Java, Bali e no Marrocos e ao descrever o uso dos símbolos, estaremos também descrevendo percepções, sentimentos, pontos de vista? Ele vai afirmar que na tentativa de descobrir o significado do “eu” nessas sociedades, oscilamos incansavelmente entre um tipo de miudeza exótica que faz com que a leitura da melhor das etnografias seja uma tortura, e uma caracterização tão abrangente que se tornariam implausíveis (p.105). Geertz afirma que durante a pesquisa o etnógrafo salta continuamente de uma visão da totalidade, para uma visão das partes através da totalidade, e vice-versa tentando fazer com que uma seja explicação para a outra.
Para encerrar o capítulo, Geertz coloca que tudo isso implica no método de Dilthey de círculo hermenêutico, já bastante conhecido, e que sua intenção é mostrar que ela é tão essencial para interpretações etnográficas como para outras interpretações como literárias, históricas, etc.




[i]_ Mestranda em Antropologia pela Universidade Federal de Sergipe. elinelimeira@gmail.com

[ii] _ Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Sergipe.raissafreitas18@hotmail.com
                                                                                                              

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Resenha “Os usos da diversidade”, de Clifford Geertz

Por Danielle de Noronha

GEERTZ, Clifford. Los usos de la diversidad. Barcelona: Paidós, 1996, pp. 65 – 92.

No texto “Os usos da diversidade”, Clifford Geertz reflete sobre o “futuro do etnocentrismo” e, ao mesmo tempo, sobre o papel do antropólogo nesta questão e sobre os usos e o estudo da diversidade. O ponto de partida é a suposta suavização da diversidade cultural, que dá lugar a um mundo formado por uma “variedade com espectro mais pálido e estreito”, marcado apenas de pequenas e sutis diferenças.

Geertz inicia seu pensamento a partir de um argumento de Claude Lévi-Strauss, desenvolvido no trabalho “Um Olhar Distanciado” (Le regard éloigné) do antropólogo francês. Em resumo, o argumento de Lévi-Strauss, que foi apresentado durante uma conferência da UNESCO de inauguração do “Ano internacional de luta contra o racismo e a discriminação racial”, em 1971, defende o etnocentrismo (utilizando outros termos) como uma ferramenta normal de manutenção das diferenças sociais. Tal raciocínio compreende que determinada cultura se perceba superior às demais e justifica que não seja possível enxergar em outra cultura considerada diferente – e, neste caso, inferior – algo que possa ser útil ou interessante para si própria. Nesse sentido, se naturaliza a diferença entre “nós” (somos quem somos) e “eles” (são quem são), e também o racismo, e coloca barreiras definidas entre as diferentes culturas. Assim, cada pessoa está presa a sua própria tradição cultural e só pode enxergar o outro – e a si próprio – desde esta perspectiva.

Geertz acredita que esse pensamento tem dominado os estudos sobre a diversidade cultural, mesmo que com diferentes abordagens, e que ele acaba apoiando-se na ideia de que a diversidade cultural fornece alternativas a nós em contraste com alternativas para nós. Isso é, outras crenças e estilos de vida poderiam ser adotados por nós apenas se houvéssemos nascido em outro contexto.

Porém, para Geertz, a questão da diversidade cultural deve ser compreendida de outro modo para englobar toda a complexidade que permeia o tema. Em primeiro lugar, para o antropólogo, o consenso universal para questões fundamentais não está próximo. Diferentes culturas e formas de ver o mundo são responsáveis por diferentes opiniões sobre assuntos comuns e isto provavelmente não mudará. Em segundo lugar, por mais que Geertz esteja de acordo de que somos influenciados pelo “nosso” lugar para compreender a nós mesmos e o mundo que nos rodea, ele acredita que o problema do etnocentrismo está em nos impedir de descobrir em que tipo de ângulo nos situamos em relação ao mundo, isto é, nos impede de ampliar a nossa visão e saber quem realmente somos.

O antropólogo pondera que as articulações do mundo social não estão divididas entre um nós perspícuo, com o qual temos empatia mesmo com as diferenças entre nós, e um eles enigmático, com o qual não temos empatia, por mais que finjamos que reconhecemos o direito à diferença. A sugestão de Geertz é que o sentido seja entendido como socialmente construído. O etnocentrismo obscurece as lacunas e assimetrias entre as pessoas e impossibilita que possamos mudar de ideia. Entretanto, a história de todos os povos está relacionada com a possibilidade de mudar de ideia, que também ocorre no encontro entre as diferentes culturas. Entender a diversidade hoje é saber que vivemos um processo de embaralhamento entre as culturas, em que as questões morais e éticas provenientes da diferença estão também dentro de “nós”. Para isso, ao invés de colocar fronteiras entre as diferenças, é necessário apreender o que significa estar no outro e, desta forma, no seu, para assim compreender como é possível contornar uma assimetria moral autêntica, sem necessariamente recorrer ao uso da força, isto é, daquele que possui mais poder. É necessário aceitar e buscar uma incursão imaginativa na mentalidade alheia.

O etnógrafo, segundo Geertz, é o principal conhecedor da mentalidade do outro em nossa sociedade e a etnografia é a grande inimiga do etnocentrismo. Ela coloca nós e eles num mesmo espaço, que de alguma forma já é comum, e não nos separa em diferentes planetas culturais. Para ele, o trabalho da etnografia é proporcionar narrativas e enredos para redirecionar nossa atenção, que nos tornem visíveis para nós mesmos, como parte de um mundo onde existem outros e também estranhezas com as quais teremos que aprender a lidar. E respeitar.

As diferenças podem ter fronteiras definidas, mas estão em espaços sociais irregulares. Geertz sugere que devemos pensar a diferença de um modo diferente, em que as distintas culturas possam ser entendidas como parte de uma grande colagem de diferenças justapostas. E, para isso, devemos fortalecer a nossa capacidade de imaginação e aprender a apreender o que não podemos abraçar.