sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Juventudes e Movimentos

Livro Organizado por Frank Marcon e Danielle Parfentieff de Noronha

Surgiu da ideia de reunirmos pesquisas realizadas nos últimos dez anos sobre a temática das juventudes, no âmbito do Grupo de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas, vinculado à Universidade Federal de Sergipe – UFS e ao Diretório de Grupos de Pesquisas do CNPq. Boa parte das pesquisas que já realizamos surgiu da motivação das constantes crises sociais, econômicas e políticas que afetam as juventudes de diferentes tempos e lugares. Sua publicação também é a oportunidade de pensarmos estratégias de continuidades mais duradouras, apresentarmos um leque de abordagens, de conceitos, de campos e de metodologias utilizados nestes estudos. O livro reúne doze autores e autoras e está dividido em três partes: Relações de Poder, Práticas e Representações; Sociabilidades, Estilos de Vida e Culturas Juvenis; e Agências e Resistências Estetizadas. Esperamos que seja um estímulo para novas pesquisas e discussões sobre políticas públicas.


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Uma Reflexão Didática sobre Democracias de Direita e de Esquerda versus Autoritarismos



História dos Conceitos

Historicamente as expressões direita e esquerda remontam à Revolução Francesa, de 1789, que é considerada um marco na queda do absolutismo monárquico (forma de governos monárquicos autoritários),[1] e ao lado de outros movimentos políticos no mundo inauguraram o Estado Moderno, pautado pelo equilíbrio entre os três poderes (executivo, legislativo e judiciário), ou seja, a base do que se passou a entender por estado democrático a partir de então.

Naqueles tempos, a Assembleia Nacional Francesa era composta por grupos políticos que defendiam a monarquia e tinham ideias econômicas mais liberais, aqueles que se sentavam a direita; outro que defendia ideias econômicas moderadas, aqueles que se sentavam ao centro; e os que defendiam ideias contrárias à monarquia e visões mais inovadoras de justiça social e participação popular, que se sentavam à esquerda da assembleia. Foi naquele momento histórico que surgiu o lema da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade, assim como, uma das principais diferenciações entre a esquerda clássica e a direita clássica, com a primeira dando maior ênfase a ideia de igualdade (sociedade) e a segunda a ideia de liberdade (indivíduo)[2].

Com o tempo, outros países foram se tornando Repúblicas ou Monarquias Parlamentares rompendo com os modelos monárquicos absolutistas e autocráticos (influenciados também pela Inglaterra), e estes estereótipos de direita e esquerda foram, de um certo modo, se tornando marcadores de dois extremos de pensamento econômico, mas também de diferenças entre os pensamentos sobre sociedade e indivíduo, como constituidores de estados democráticos.

Já os posicionamentos políticos passaram a ser entendidos como mais conservadores (a direita) e mais inovadores e progressistas (a esquerda). Por exemplo, no século XIX alguns partidos continuaram defendendo monarquias, como no Brasil, o que do ponto de vista político é uma visão de direita, mesmo que o governo em algum momento possa ser mais ou menos conservador ou liberal do ponto de vista econômico e a depender do contexto e dos interesses em jogo. Lembremos que o Brasil foi escravocrata[3] até 1888, e monárquico até 1889, misturando valores conservadores com doses de liberalismo econômico.

Pensar o século XIX é também perceber o crescimento dos direitos civis e políticos, o surgimento de movimentos sufragistas[4], a consolidação de ideias democráticas, a formação das primeiras organizações políticas de trabalhadores[5], as discussões sobre jornada e condições de trabalho, a expansão da ideia de educação e de saúde pública e, também, relacionado a esses avanços, uma série de conflitos que nem sempre ocorriam por vias democráticas[6]. No Brasil tais mudanças ocorrerão com maior força só a partir de meados do século XX.

Conceitos Político-Econômicos e Sociais

Assim sendo, quando falamos de direita e de esquerda no Estado-Nação moderno, nas democracias do século XX para cá, se entende que estamos falando de posições econômicas de mercado e de relações de trabalho mais liberais (mais à direita) ou posições econômicas com maior intervenção do estado (mais à esquerda). O que isto significa, do ponto de vista econômico, é que quanto mais liberal a economia, menos o governo deve intervir na sua regulação e na regulação das relações de trabalho, pois se acredita que a economia deve ser livre para se autorregular (inclusive a educação, a saúde e a segurança passam a ser vistas como produtos do mercado) e que a medida que a economia cresce tudo que ela oferece estaria acessível para todos. Na perspectiva mais dirigista de economia (que pode ser entendida como mais socialista, mesmo quando sendo uma postura no próprio sistema capitalista) não se acredita nessa autorregulação plena, porque se entende que o mercado não é suficientemente sensível às desigualdades sociais, como também pode acabar produzindo a própria desigualdade social, já que o lucro seria a finalidade maior do mercado[7]. Portanto, para os pensamentos mais à esquerda, o Estado (mesmo capitalista) deve fortalecer as instituições e os serviços públicos para antes produzir justiça social e um equilíbrio mais igualitário entre o acesso aos bens, para que assim possa crescer a economia com maior justiça social. Para os pensamentos mais à direita, o Estado deveria deixar os “serviços públicos” a cargo de empreendedores individuais, fortalecendo, com isto, a livre concorrência que resultaria na redução de preços e no aumento da qualidade desses serviços. Novamente a diferença entre direita e esquerda no pensamento econômico é baseada em uma ideia pró-sociedade (esquerda) versus pró-individuo (direita).

Sintetizando, em economia, quanto mais à direita, menos intervenção do Estado, quanto mais à esquerda, mais intervenção do Estado. A ideia de centro, procura moderar ambas as posições econômicas, em alguns momentos pendendo mais para um lado ou para o outro.

Do ponto de vista político de concepção de sociedade também se fala em direita e esquerda em termos de valores morais e direitos. Por exemplo, os valores sociais mais conservadores são considerados de direita, por temerem as mudanças e se apegarem as ideias de verdades absolutas, de autoridade, de hierarquia, de honra, de religião e de objetividade, geralmente recusando a perda do estatuto social de poder daqueles que já estão em posições privilegiadas, que defendem posições hierárquicas tradicionais (patriarcal, machista, racista, heteronormativa, de classe, religiosa). A ideia de meritocracia se baseia nessas hierarquias já postas, porque não olha para as desigualdades sociais reais como condição da concorrência. Já os valores mais progressistas são considerados mais à esquerda no sentido de entenderem que a sociedade se transforma e estas mudanças de valores devem ser consideradas, aceitas e respeitadas, incluindo a necessidade da quebra de hierarquias estruturais tradicionalmente consolidadas por estados moralistas (que legitimaram desigualdades através do machismo, da homofobia, do racismo, do preconceito religioso e da desigualdade de classes). Ou seja, os progressistas combatem o que consideram ser formas morais preconceituosas de hierarquizar as pessoas e os grupos humanos, defendendo a necessidade de políticas que promovam o equilíbrio social.  Novamente, no centro, estão aqueles que ora são mais progressistas em algumas questões, ora são mais conservadores em outras. A exemplo do debate sobre armas, aborto, drogas (os de centro podem ser a favor das pessoas poderem portar armas de um lado, mas serem a favor de que sejam livres para consumir drogas de outro, podem ser contra ao aborto e favoráveis à pena de morte, o que pode parecer contraditório e demonstra que os de centro mais dificilmente concordam com tudo o que possa ser definido como valores mais conservadores ou mais progressistas).

Os partidos políticos no Brasil e seus diferentes nomes fazem alusão aos termos direita/esquerda, liberal/social, conservador/progressista sem necessariamente fazerem o uso adequado e esclarecido do que eles significam. Muitos, inclusive, misturam ideias que muitas vezes são incoerentes e divergentes por definição[8]. Os estatutos dos partidos muitas vezes são muito contraditórios nessas questões e muitas vezes sequer são levados a sério na prática política dos mesmos, sem exigir coerência de seus partidários. Muitos trocam de partido, saltando de um que teria conceitualmente uma postura mais à esquerda ou mais à direita, mais conservadora ou mais liberal, para outros, mesmo que as ideias sejam completamente opostas. Poucos desses políticos mantêm toda sua trajetória e suas práticas políticas em uma destas linhas de coerências.

No caso dos E.U.A, ainda como exemplo, os Democratas (mais à esquerda) e os Republicanos (mais à direita) são dois lados opostos muito próximos ao centro no que diz respeito ao pensamento econômico[9]. As diferenças mais extremas entre eles são sobre valores morais e políticos mais ou menos conservadores ou progressistas. O exemplo mais significativo do extremo conservadorismo é o do grupo Tea Party[10], que é um grupo dentro do partido republicano que reúne a ala de maior poder econômico do partido e que financiou a candidatura de Trump e o que ela representa em termos de retirada de direitos sociais (como o fim do programa de saúde criado por Obama, seu antecessor, do Democratas). É contra políticas para os imigrantes, tem posicionamentos machistas e racistas, se posiciona contra os direitos humanos, não acredita na versão científica do aquecimento global e demonstra posicionamentos autoritários em situações de crise.

Sintetizando, no capitalismo podemos ter políticos e partidos que digam ser conservadores nos valores e liberais na perspectiva econômica (conservador-liberal), ou progressistas nos valores e liberais na perspectiva econômica (progressista-liberal), ou ainda, conservadores nos valores e mais dirigistas na perspectiva econômica (conservador-dirigista) ou ainda mais progressistas nos valores e mais socialistas na perspectiva econômica (progressista-socialista).

Alguns conceitos Políticos presentes nas Democracias
  
Esquerda Progressista – São muitos os níveis de intensidade no significado do que pode ser uma esquerda progressista. De modo geral, quanto mais à esquerda do ponto de vista econômico, mais se defende a intervenção e regulação do Estado na economia, com o objetivo de promover a justiça social no acesso aos recursos e às riquezas produzidas no País, o que pode se dar por políticas de redistribuição de renda ou através de políticas fiscais que cobrem mais dos que têm mais e outras estratégias para promover o que considera justiça social. Defende que as garantias constitucionais de educação, saúde e segurança são atribuições fundamentais do estado, mas também, de algum modo, que o estado deve controlar a produção energética como matriz do desenvolvimento econômico (dirigismo estatal). Durante o século XX, as perspectivas mais radicais da esquerda se definiam como socialistas e defendiam o máximo de intervenção estatal nas relações trabalhistas e nos sistemas de produção econômica. Sobre valores, sobre a moral e a política, defende que a nação é formada por diferentes grupos étnicos, raciais, de gênero, de classe e de religião e que o estado deve levar em conta estas diferenças, promovendo o convívio, a defesa e o equilíbrio dos múltiplos interesses dos diversos grupos e o acesso igualitário aos direitos. Se considera uma posição mais democrática por defender a diversidade e respeitar as diferenças culturais, econômicas, regionais e religiosas. 

Centro - Social Democracia – Procura ser o equilíbrio entre direita e esquerda no que diz respeito ao econômico, mas entende que o Estado tem um papel importante na regulação de desigualdades extremas. Sobre valores morais também procura se posicionar ao centro, atribuindo ao coletivo às responsabilidades do caminho a seguir. O Brasil, desde Fernando Henrique Cardoso, é um bom exemplo, sendo, desde os anos noventa, uma social democracia, ora mais à direita liberal, ora mais à esquerda progressista, sem ter caído em nenhum dos polos. É também o modelo atual da maioria dos países da Europa, desde a criação da Comunidade Europeia, em 1992. No Brasil, quando se falava em neoliberalismo nos anos 90, se falava a partir de uma ideia de social democracia, mas quando se falava também em governo populista após 2003, também se estava falando de social democracia, no sentido mais à centro-esquerda. Se considera mais democrático por tentar equilibrar as forças e interesses, considerando méritos, sem descuidar da diversidade social e das desigualdades sociais extremas.

Direita Liberal - Hoje há muitos níveis de liberalismo (direita). Quanto mais liberal, menos intervenção do Estado. Por exemplo, existe uma vertente ultraliberal que é chamada de libertarianismo, que tem como base teórica a escola austríaca de economia, que no seu extremo defende a total liberdade do capital (inclusive a desestatização total da economia, incluindo de quaisquer controle sobre energia, educação, saúde e segurança) o que denominam de viés anarcoliberal, pois também se consideram progressistas por defenderem que o estado não deve se meter na vida das pessoas, não devendo tutelar suas vidas em nenhum aspecto. Portanto, as pessoas podem decidir o que quiserem no que diz respeito ao uso de drogas, ao porte de armas, ao aborto, ao meio ambiente, etc. Entende que a sociedade se autorregula pela economia e as pessoas são livres e autorresponsáveis. Por exemplo, na questão polêmica do aborto, eles não chegam a um entendimento, mas os mais coerentes com a filosofia irão dizer que não é problema do estado e sim do âmbito da vida privada, sendo a favor que as pessoas decidam e caso optem por fazê-lo que o façam com seus próprios recursos. Pode ser considerado mais democrático por quem concorda com tal postura, pela defesa das liberdades individuais ampliadas e até mesmo ilimitadas.

Direita Conservadora – Defende a intervenção limitada do estado na economia, quando e se os dirigentes e grupos econômicos julgarem necessário proteger ou fortalecer o sistema financeiro e a economia nacional, principalmente em defesa dos proprietários dos bens de produção, que são considerados os geradores da riqueza. É conservadora também nos valores, por imaginar que os valores morais dos grupos tradicionalmente dirigentes são os únicos moralmente corretos, por isto é contrário às ideias feministas, aos imigrantes, à diversidade sexual, às relações homoafetivas, contra a diversidade religiosa e contra os indígenas, etc. Defende que a sociedade é hierarquizada entre a boa e a má conduta, ou seja, dividida entre bons e maus. Os representantes e defensores das direitas conservadores se veem como os representantes da boa moral, como bons (defendem exclusivamente o ponto de vista do que consideram ser a sua raça, classe, religião, opção sexual). Se imagina mais democrático por defender uma essência de nacionalidade, de honradez, de raça e de moral. Um dos representantes mais acabado desse modelo, na atualidade, é Trump, nos EUA. Alguns exemplos conceituais de direita conservadora são chamados de neoconservadores, conservadores tradicionalistas, positivistas, vertentes religiosas conservadoras.

Direita ReacionáriaEmbora o termo reacionário em muitos momentos seja utilizado como sinônimo para conservador, existem diferenças filosóficas importantes entre as duas leituras. Enquanto conservadores defendem mudanças paulatinas e não abruptas na sociedade, uma vez que acreditam na capacidade de aperfeiçoamento do ser humano e das instituições ao longo dos anos. A direita reacionária parte de uma motivação estabelecida a partir de uma visão de crise (cultural/moral). Para eles as relações sociais foram corrompidas por alguma força exterior[11] e chegaram a uma situação inaceitável. Isso justificaria intervenções autoritárias para retornar valores morais perdidos ao longo da história. A crença nesse tipo de ideologia tensiona a memória ao construir uma visão de passado imaginado, sem conflitos ou problemas, negando a produção científica, as obras clássicas e a história. São posicionamentos que começam a definir a suspenção democrática, em troca da manutenção da moral, inclusive com ameaça de perseguição e eliminação dos grupos sociais que são contrários ao seu entendimento de nação. Este posicionamento é mais próximo de formas autoritárias de governo. Como exemplos: defensores do retorno à monarquia, defensores do retorno da ditadura, entre outros. Vários desses posicionamentos foram defendidos por um recente candidato à presidente no Brasil.

Perdendo a Democracia - Conceitos de Autoritarismo

Autocracias: Em sua definição autocracias são governos em que apenas uma representação é detentora de poder e controla todos os níveis do governo. Normalmente ela se concentra na figura de um líder que é autorizado a tomar medidas a partir de seus pontos de vistas.  Essa estrutura de governo não está alinhada exclusivamente ao que por analogia se denominou de campos da direita ou da esquerda, existindo versões em ambos os campos e até mesmo vertentes anteriores a divisão direita/esquerda. Em confrontação com a democracia, os regimes autocratas negam a participação popular, compreendendo a população como incapaz de decidir sobre as suas necessidades, tutelando a sua participação ou mesmo a possibilidade de representatividade em troca de um “bem maior”. Em regimes autocráticos ainda podem ser mantidos, mesmo que de maneira limitada e figurativa, algumas instituições e direitos seletivos. Alguns exemplos são as monarquias absolutistas, as ditaduras e os estados de exceção. Regimes autoritários são violentos e militarizados, não são nada transparentes sobre a forma de governar ou de julgar, estabelecem censuras sobre a comunicação e usam uma enorme máquina de propaganda para transmitir com exclusividade apenas os conteúdos que interessam a quem governa.

TotalitarismosSão autocracias violentas e antidemocráticos por excelência, por militarizarem o governo, estimularem o culto aos líderes, transmitirem informações falsas e concentrarem a autoridade em um indivíduo ou grupo. Estes regimes estão fora do que se considera admissível na sociedade contemporânea, são tudo o que representa a antipolítica no sentido stricto sensu. No século vinte, os regimes totalitários mais conhecidos foram o nazismo (na Alemanha), o fascismo (na Itália, Espanha e Portugal) e estiveram muito próximos deste conceito também o apartheid (na África do Sul) e o estalinismo (na União Soviética). Todos produziram milhares de assassinatos. Na história do Brasil, os momentos de maior aproximação com o totalitarismo foram as formas autoritárias de governo do Estado Novo (1937-45) e a Ditadura Civil-Militar (1964-1985), quando se suspenderam os direitos políticos das pessoas e se concentrou o poder nas mãos de grupos militares e econômicos, se perseguindo os opositores do regime e instaurando formas ilegítimas e não democráticas de governo. Propostas autoritárias ou totalitárias podem chegar ao poder através do voto, mas só depois de chegar ao governo é que institucionalizam práticas autocráticas e autoritárias perseguindo grupos sociais e políticos, sejam democratas de direita, sejam de esquerda. Os regimes autoritários e totalitários são ditaduras que promovem o extermínio de todos os que pensam diferente do ou dos líderes, estimulando ações em nome de uma causa, ou de algumas causas, geralmente conservadoras e em nome da  nação, por isto são contra a diversidades: negros, índios, gays, feministas, pessoas democratas de esquerda, defensores de direitos humanos e liberais. Quando estes regimes são apoiados por parte da população, ela mesma se torna a promotora do ódio e da perseguição aos diferentes, como já ocorrera em muitos países. Os modelos de governo que mais flertam com os autoritarismos são os governos conservadores, sejam eles ditos de esquerda, sejam de direita, quando culpam parcela da sociedade pelos momentos de crise e estimulam o ódio e a violência contra parcelas da população que pensam ou agem diferente de suas convicções políticas e morais.

Sintetizando, quaisquer outras formas de Estados Nacionais que concentrem o poder nas mãos de um grupo político e não respeitem a harmonia e os limites entre os poderes constitucionais: executivo, legislativo e judiciário, penderá para o autoritarismo, à semelhança de regimes monárquicos absolutistas. Portanto, Democracias e Autocracias se excluem por definição.

Considerações Finais

Estados democráticos são mais participativos, mais igualitários, com maior liberdade de expressão e maior equilíbrio entre igualdade social e liberdades individuais, quando comparados aos Estados autocráticos, que são mais autoritários e que concentram o poder exclusivamente em um pequeno grupo (militares, burocratas, religiosos, castas, proprietários).

Independente das posições políticas mais ou menos progressistas ou conservadoras, mais ou menos liberais ou socialistas, mais ou menos à direita ou à esquerda, os estados democráticos buscam as suas soluções a partir da participação coletiva e com o legítimo funcionamento das instituições, da constituição e das leis vigentes elaboradas também no contexto democrático. O aprimoramento das democracias não é algo fácil e simples, pois depende da participação coletiva como princípio duradouro, buscando o equilíbrio entre as garantias de liberdades individuais e de justiça social, mesmo que para algumas posições ideológicas (e todas são: mais à direita ou mais à esquerda) pese mais um ou outro lado da balança, estas garantias devem coexistir como princípio da vida coletiva.  

Nas experiências autoritárias, o estado é antidemocrático, mais hierarquizado e mais desigual, mais militarizado e mais violento, sendo menor ou muito limitada a liberdade de expressão. Muitos são os crimes cometidos por interesses políticos ou crimes que não interessam ao estado esclarecer, por afetarem pessoas que o grupo no poder despreza. Em alguns casos, o próprio estado estimula a eliminação de certos grupos sociais indesejados (por etnia ou raça, pela religião, pelo seu posicionamento político, pela sua posição social ou por suas escolhas sexuais-afetivas).

Em qualquer entendimento plausível sobre o Estado e a vida política no mundo contemporâneo, as democracias podem ser mais perfeitas ou imperfeitas, mais à esquerda ou à direita, mais conservadoras ou progressistas, mais liberais ou mais socialistas; mas nas autocracias, uma pessoa ou um pequeno grupo fazem da sociedade o que quiserem, como quiserem e quando quiserem e mudam de ideais e percepções sobre economia e sociedade a depender de sua vontade e protegidos pela força militar. Na história recente, todas as experiências autocráticas foram extremamente violentas e excludentes. As democracias são a única solução viável para se construir saídas às crises econômicas e sociais, só há possibilidade de se construir justiça social através da participação coletiva, seja ela como for possível.       
Frank Marcon[12]
Marco Aurélio Dias de Souza[13]

Algumas referências para quem se interessa por Política além do Whatsapp
BOBBIO, N. Direita e Esquerda: Razões e Significados de uma Distinção Política. São Paulo: UNESP, 1995. Disponível em:  http://www.comtudo.com.br/edicoes/pdfs/bobbio_esquerda_direita.pdf.
O livro do cientista político italiano Norberto Bobbio é uma das principais obras sobre a definição de direita e esquerda.

BONAVIDES, Paulo. Ciência Política. São Paulo: Malheiros, 2000. Disponível em: .
O livro de Paulo Bonavides apresenta definições claras sobre alguns conceitos de política que constantemente vemos aflorar em épocas de eleição.

PATEMAN, C. Participação e Teoria Democrática. São Paulo: Paz e Terra, 1992. Disponível em: http://files.anexositecp.webnode.pt/200000082-88343892ea/PATEMAN,%20C.%20Participa%C3%A7%C3%A3o%20e%20Teoria%20Democr%C3%A1tica.pdf
Nesse livro Carole Pateman faz uma análise profunda sobre a questão envolvendo as ideias de representação (que significa votar em alguém que nos representará no congresso) e a de participação (ideia central no debate sobre democracia de que devemos participar o tempo todo da vida política).

POLONYI, K. A Grande Transformação: As origens de nossa época. Rio de Janeiro: Compus, 2000. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/1973131/mod_resource/content/1/Polanyi_A%20grande%20transform.%20-%20livro%20todo.pdf.
Polonyi escreveu um rico texto sobre o debate entre o liberalismo teórico, sobre suas tentativas de implantação e sobre as resistências sociais criadas seus efeitos. Apontando que os governos totalitários, de esquerda e de direita, surgidos durante o século XX, como o Fascismo, o Nazismo e o Socialismo Totalitário Soviético foram resultados do empobrecimento e das crises econômicas causados por essas medidas.

RIBEIRO, R. J. Democracia. São Paulo: Publifolha, 2008. Disponível em: http://lelivros.love/book/baixar-livro-a-democracia-renato-janine-ribeiro-em-pdf-epub-e-mobi-ou-ler-online/
Renato Janine Ribeiro trabalha com as diferenças entre República (com a ideia da necessidade de notáveis que liderariam a população) e Democracia (com a ideia de participação de todas as pessoas na vida pública).





[1] No século anterior (XVII), a Inglaterra iniciou seu processo revolucionário o que resultou na extinção da monarquia absolutista e dividiu o parlamento entre conservadores (que defendiam um maior poder para o rei) e Liberais (que defendiam o poder do parlamento). 
[2] Essa oposição de ideias, responsáveis pelo processo revolucionário, foi duramente criticada pelo conservador inglês Edmund Burke que considerava que os franceses haviam decapitado seu rei pelas motivações imaginárias da liberdade, igualdade e fraternidade (até então estes termos não faziam parte do debate político).

[3] No caso da escravidão no Brasil, conservadores e alguns liberais se posicionaram pela sua manutenção. Os liberais argumentando que legislações que impediam o comércio de escravos ou a utilização desta mão de obra resultariam em crises econômicas motivadas pela intervenção estatal na economia.
[4] Que levaram a participação de novos grupos no processo eleitoral.
[5] Vários movimentos políticos e conjuntos de ideias desenvolveram-se nesse período: no campo da esquerda surgem as ideias marxistas, anarquistas, sociais-democratas e propostas cristãs igualitárias. No campo da direita surgem modelos utilitaristas (que pautavam na busca individual pela felicidade) e o positivismo (que tem o seu lema Ordem e Progresso até hoje presente em nossa bandeira).
[6] Como exemplo a revolução de 1848, quando uma série de revoltas de trabalhadores se espalhou pela Europa, reivindicando principalmente o direito ao voto e melhores condições de trabalho e foram reprimidas pelos governos nacionais (esse foi o primeiro momento que movimentos de esquerda utilizaram a cor vermelha que na revolução francesa representava a fraternidade).
[7] Embora os termos Liberal e Comunista tenham e continuem sendo utilizados para definir suas tentativas fracassadas de aplicação e, principalmente, para atacar governos com temáticas mais à direita ou mais à esquerda, jamais existiu na história suas implantações de forma integral. No caso do liberalismo por mais que governos implantem medidas ditas liberais, sempre se manteve proteção de determinados setores, como exemplo do mercado de trabalho (negando a ideia de meritocracia ao reservá-lo apenas para a população que vive em um determinado país) e da tecnologia militar (grande parte da tecnologia que depois foi repassada para a indústria veio de investimentos estatais no exército). No caso do Comunismo a confusão é ainda maior, uma vez que, teoricamente, a ideia de comunismo parte da coletivização dos meios de produção e do fim das classes sociais (o que resultaria na obra de Marx uma futura não necessidade da existência de um Estado, compreendido como um instrumento de dominação de classes). Ou seja, considerar liberalismo a simples diminuição do Estado e considerar o Comunismo o aumento dele é, na teoria, completamente o oposto do que essas ideias representam.
[8] Vide lista dos partidos em atividade no país (Acessada em 21/10/2018): http://www.tse.jus.br/partidos/partidos-politicos/registrados-no-tse
[9] O sistema eleitoral estadunidense estruturado em uma lógica majoritariamente bipartidária faz com que grande parte dos debates mais radicalizados ocorra a partir de disputas de correntes no interior destes dois partidos, durante suas prévias. O que estimula a mobilização política e permite que no momento das eleições as campanhas ocorram com alianças definidas.
[10] Movimento político que ganhou força em oposição ao governo Barack Obama, principalmente, opondo-se a reforma do sistema de saúde a partir de uma defesa radicalizada da constituição.
[11] Essa força exterior é construída de uma forma ideológica, atribuindo a ele os problemas gerados pela estrutura social. Na história temos vários exemplos desse tipo de leitura, como críticas a uma elite globalista, a uma suposta dominação de um marxismo cultural, a um determinado grupo religioso ou racial. O caso mais notório desse processo foi o da Alemanha Nazista que atrelou aos judeus a decadência do país e a aceitação de um regime totalitário.
[12] Professor universitário com Mestrado em História e Doutorado em Antropologia.
[13] Professor universitário com Doutorado em Sociologia.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Mostra Paralela: Elas Por Trás das Câmeras


A II Semana de Antropologia da UFS, durante os quatro dias do evento, irá contar com a 1ª edição da Mostra Elas Por Trás das Câmeras, em parceria com o Grupo de Estudos Culturais, Identidades e Relações Interétnicas – GERTs.

Em 2016, foram lançados 142 longas-metragens no circuito comercial do país e apenas 19,7% das produções contaram com mulheres na direção. Se olharmos para a intersecção com raça, o número é ainda mais alarmante: apenas duas mulheres negras assinaram a direção de um filme lançado comercialmente na história do cinema brasileiro: Adélia Sampaio (Amor Maldito, 1984) e Camila de Moraes (O Caso do Homem Errado, 2017).

As demais funções técnicas também são ambientes dominados por homens brancos, com especial atenção à fotografia. Segundo pesquisa de Nina Tedesco (2016), apenas 4% dos longas brasileiros de ficção lançados entre 1984 e 2014 foram fotografados por mulheres.

Ao compreender que o primeiro passo para mudar esse cenário é discutir sobre o tema, a Mostra Ela por Trás das Câmeras busca se unir aos diversos esforços que estão sendo realizados por todo o país e visibilizar produções audiovisuais contemporâneas que contam com mulheres na direção, além de outros departamentos, como fotografia, arte, montagem e som.

A programação da mostra irá exibir curtas-metragens – um formato que possibilita mais pluralidade de vozes – dirigidos por mulheres, grande parte sobre e com personagens mulheres de distintas realidades, além de realizar debates sobre a temática após as projeções.

Coordenação e curadoria: Danielle de Noronha e Frank Marcon
Comissão Organizadora: Danielle de Noronha, Élida Braga, Erna Barros, Frank Marcon e Raissa Freitas
Arte: Erna Barros

Local: Auditório DCS

PROGRAMAÇÃO*:


Dia 27 de novembro | 15h  
A produção no âmbito do curso de audiovisual da UFS

Riots in Brazil
– Liss Belfort e Lilian Oliveira | SE (6’12’’)
Cenas para Paganini – Luna Safira | SE (13'34")
O corpo é meu
– Luciana Oliveira | SE (24’)

+ Debate com as realizadoras e com a professora Maira Ezequiel (DCOS/UFS)

Dia 28 de novembro | 15h  
Mulheres negras no audiovisual

Rainha – Sabrina Fidalgo | RJ (30’)
Peripatético – Jéssica Queiroz | SP (15’)

+ Debate com a presença de Laila Oliveira, Raissa Freitas (GERTs/UFS) e Jéssica Queiroz

Dia 29 de novembro | 15h
Mulheres e cinematografia

A passagem do Cometa – Juliana Rojas | SP (21’)
Sentido
– Nina Tedesco e Pedro Curi | RJ (18’)

+ Debate com a presença de Danielle de Noronha (GERTs/UFS), Damyler Cunha (DCOS/UFS) e Nina Tedesco (CINEVI/UFF)

Dia 30 de novembro | 10h  
O audiovisual fora do eixo Rio-São Paulo

Fervendo – Camila Gregório | BA (16’)
Simbiose – Júlia Morim | PE (19’)
Uma cidade muda não muda – Erna Barros | SE (19’)

+ Debate com a presença de Erna Barros (GERTs/UFS), Júlia Morim e Yanara Galvão (PPGCINE/UFS).

Clique aqui e conheça as sinopses e fichas técnicas dos filmes.


*(programação sujeita a alteração)


quinta-feira, 6 de setembro de 2018

Uma cidade muda não muda





A experiência de grafiteiras no espaço público a partir da perspectiva de uma cidade hostil à presença das mulheres. (Direção: Erna Barros).

Curta realizado junto à pesquisa de Doutorado em Sociologia da Universidade Federal de Sergipe-UFS intitulada "UMA CIDADE MUDA NÃO MUDA: A PRESENÇA DAS MULHERES NO ESPAÇO PÚBLICO ATRAVÉS DA PRÁTICA DO GRAFFITI" (em andamento - PPGS/UFS 2016-2020). Autora: Erna Barros
Orientador: Frank Marcon

Direção e edição: Erna Barros
Imagens Erna Barros e Ewerton Nunes

domingo, 3 de junho de 2018

“Tempo e espaço”, de Zygmunt Bauman - Resenha


Por: Laise Maria da Silva

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001, pp. 107-149.

No texto de Bauman sobre “tempo e espaço”, o autor inicia o capítulo refletindo sobre a categoria espaço, a partir do projeto do arquiteto inglês George Hazeldon, que consistia na construção de Heritage Park, uma cidade planejada.

Segundo o sociólogo, o projeto de Heritage Park consistia em uma fortaleza, que apesar de ser segura contra ataques externos (assaltos, vandalismos, etc.) sufocava internamente a comunidade que ali residia. Desta forma, esse projeto queria vender a ideia de uma sociedade perfeita, que vivesse em harmonia, onde o “outro” (vagabundo, assaltante, etc.) poderia ser evitado. Contudo, isso acabava também reprimindo os próprios moradores.

Com base no pensamento de Sennett, Bauman pondera que o que garante uma convivência com o mínimo de harmonia é o que Sennett chamou de “civilidade”, e para que isto possa acontecer faz-se necessário um ambiente civil, promovido por espaços públicos. Espaços esses que estão cada vez menos civis.

No decorrer do texto, Bauman exemplifica algumas categorias de espaços que são públicos, mas não civis. Como primeiro exemplo, ele cita a praça “La Défense” em Paris, que de acordo com o mesmo, este espaço é resguardado e nada convidativo para que os pedestres sentassem nos bancos e socializassem.       

A segunda categoria, ressaltada pelo sociólogo, é a dos indivíduos enquanto consumidores, que frequentam espaços como shoppings, cafés, etc. Sendo o objetivo dos que frequentam esses espaços uma experiência individual, de comprar, e de não interagirem entre si.

A terceira categoria que Bauman destaca é a dos não-lugares, que o mesmo define como sendo as esperas nos aeroportos, os transportes públicos e os quartos de hotéis, que são responsáveis por anular qualquer contato entre os indivíduos.

Por fim, a última categoria que o autor salienta são os espaços vazios, que segundo ele existem dois tipos, os restos arquitetônicos, como bairros pobres, cortiços e moradias improvisadas, e os criados a partir da própria estrutura cognitiva das pessoas. Sendo assim, conforme Bauman, as quatro categorias são responsáveis por atuarem em uma frente única, o que anula qualquer tipo de interação.

Com relação ao tempo, o sociólogo salienta que a modernidade foi responsável por inaugurar a história do tempo. Segundo o mesmo, foi através de técnicas e tecnologias criadas pelo homem que a relação sujeito/tempo foi modificada. Como exemplo dessa mudança, Bauman destaca a inovação nos meios de transportes, o que possibilitou o encurtamento no tempo de viagem, das correspondências, etc.

É importante destacar que o autor compreende o tempo como um elemento que pode ser manipulado, corrompido e encurtado, de acordo com aqueles que estão no domínio. O sociólogo também salienta que a percepção de tempo se modificou com os avanços tecnológicos, o que possibilitou que informações percorressem distâncias quilométricas em segundos.

Bauman enfatiza que um dos fatores de dominação do tempo é a previsibilidade, pois, sendo o mesmo instantâneo, torna-se assim imprevisível, e aqueles que conseguem prevê-lo, têm seu domínio. Em suma, o sociólogo explica que, devido ao fato dos dominados não aproveitarem a instantaneidade do tempo, os mesmos acabam presos às suas próprias limitações (tecnológicas, financeiras, etc.).

sábado, 21 de janeiro de 2017

Estéticas y Transiciones (click)

Entre los distintos modos como la ciudad es experimentada en la contemporaneidad, algunos pasan por la contestación de los usos normativos de los espacios considerados públicos, por parte de los  jovenes que la viven en su dia a dia y la reinvindican como lugar de sus agencias, del encuentro, de la linguagen, de la expresion, de la comunicación, de la política, del trabajo y del ócio. La ciudad si hace el suporte de las intervenciones estéticas y de las experiéncias de los estilos de vida ligados a los modos del agir (como patinar, bailar, cantar y dibujar) através del skate, del baile, de la música y de la arte de la calle. El gusto, la satisfación, las amizades, los conflitos, las redes de relaciones y la condición de transición hacen parte de sus experiéncias cotidianas. Este vídeo fué elaborado como resultado de investigaciones etnográficas realizadas durante el año de 2016, na ciudad de Barcelona - ESPANA.

Vídeo Legendado em Português

Estéticas e Transições

Entre os diferentes modos como a cidade é experimentada na contemporaneidade, alguns passam pela contestação dos usos normativos dos espaços considerados públicos, por parte dos  jovens que a vivem no seu dia a dia e a reinvindicam como lugar de suas agências, do encontro, da linguagem, da expressão, da comunicação, da política, do trabalho e do ócio. A cidade se faz suporte das intervenções estéticas e das experiências dos estilos de vida ligados aos modos do agir (como patinar, dançar, cantar e desenhar) através do skate, da dança, da música e da arte na rua. O gosto, a satisfação, as amizades, os conflitos, as redes de relações e a condição de transição fazem parte das suas experiências cotidianas. Este vídeo foi elaborado como resultado de pesquisas etnográficas realizadas durante o ano de 2016, na cidade de Barcelona - ESPANHA.

terça-feira, 24 de maio de 2016

A situação atual

GEERTZ, Clifford; RIBEIRO, Vera (Trad.). A situação atual. In: Nova luz sobre a antropologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.


Daniela Moura Bezerra Silva (PPGS/UFS)

            No capítulo cinco da obra Nova Luz sobre a antropologia, Clifford Geertz (2001) se propõe a discutir a situação atual da antropologia, o que faz ao retomar algumas das questões que surgem com a própria delimitação desse campo de estudos e ao analisar os caminhos que esta vem a seguir no decorrer dos anos.
            Inicialmente, o autor nos lembra que a antropologia foi formada como uma espécie de coletânea de outras disciplinas, um fator que contribui para preservá-la como uma área descentrada. Esse, contudo, não configura seu único problema, existe uma dificuldade ainda maior, a que chamou de “desaparecimento do objeto” (P.88). “Os ‘primitivos’, mesmo dos tipos que celebrizou Boas, Mead, Malinowisky e Evans-Pritchard, são um patrimônio meio desgastado” (GEERTZ, 2001. 89). O que Geertz quer dizer é que não podemos mais falar de uma única temática de trabalho, não há pesquisa isolada.
            Citando o trabalho de Sahlins sobre os havaianos no século XVIII, Geertz apresenta uma importante reflexão a respeito da condução de nossas análises de campo. Para ele, falar sobre aquilo que não foi dito seria o mesmo que teorizar sobre a consciência do outro, o que nos leva aos seguintes questionamentos: “Como entender as práticas culturais que nos são estranhas e ilógicas? Quão estranhas são elas? Quão ilógicas? Em que reside a razão, precisamente?”(GEERTZ, 2001; 99). A  partir da exposição de autores e correntes, a preocupação do autor é chamar a atenção para uma discussão moral sobre o trabalho do antropólogo.
            No ultimo tópico do capítulo, Geertz (2001) faz críticas a determinadas posturas das Ciências Sociais – e da ciência de modo geral – uma delas ele chama de universais.  “A maioria dos universais é tão geral que não tem força ou interesse intelectual, é uma banalidade a qual faltam minuciosamente ou surpresa, ou exatidão ou revelação, e que, portanto, tem pouquíssima serventia” (p.125). Para ele, buscar o caráter universal das coisas acaba por deixar de lado o que é realmente produtivo.  Ele chega a mesma conclusão no que diz respeito as generalizações, para o autor, precisamos considerar que trabalhamos com probabilidades, ou seja, uma tese formulada a partir do estudo de uma determinada sociedade que pode não ser aplicada a outra – esta outra é capaz, inclusive, demonstrar uma postura completamente distinta.
            Notamos, portanto, que Geertz apresenta como preocupação não criar modelos fechados e arbitrários de análise, além disso, o autor faz críticas duras a antropologia e seus rumos que por vezes não percebe o quanto obsoleto determinados termos e posturas se tornaram.

            

quarta-feira, 2 de março de 2016

Resenha Anti anti-relativismo

GEERTZ, Clifford. Anti anti-relativismo. In: Nova luz sobre a antropologia.  – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
Élida Damasceno Braga [1]
elidabraga74@gmail.com


Numa proposta incisiva, Geertz inicia o texto com a tarefa de “destruir um medo”, a saber, do relativismo cultural. Nele, o autor aponta para a forma equivocada de contrapor o relativismo, rejeitando a mesma sem, no entanto, comprometer-se com o que está sendo rejeitado (p.48). Assim, ideia principal do texto está na crítica ao anti-relativismo.
Geertz (2001) observa através de uma série de autores citados que os ataques a abordagem relativista não sugerem muita clareza sobre o assunto, haja vista ter uma tendência absolutista, ora vendo o relativismo equiparado ao niilismo, ou seja, uma redução a nada, ora como algo desprovido de um posicionamento político. O autor adverte que à teoria antropológica não pode ser atribuída uma mensagem de relativismo e que o argumento de que esta é “contra o absolutismo no pensamento” está nos dados antropológicos obtidos nas diversas pesquisas e não por inclinações relativistas. Isso, segundo Geertz (2001) “ não passa de mais um mito a confundir toda essa discussão” (p.49).
A ideia de que as opiniões e costumes de onde vivemos é o critério racional válido, possibilitou avanços no campo antropológico, discussões e posicionamentos que ora se alinham, ora se contrapõem. Para Geertz (2001), o relativismo e o anti-relativismo são formas de se responder às questões que afetam a percepção das coisas.
O autor segue sua argumentação apresentando o pensamento de outros autores. De modo que, ao relativismo cabe a preocupação de não estarmos tão focados em nossa própria sociedade, de não sermos tão provincianos. Enquanto aos anti-relativistas cabe à preocupação de que a postura relativa que se deriva das culturas faça com que essa visão limitada seja empecilho de uma maior comunicação, assim como a incapacidade de realizar críticas interculturais. Ele destaca ainda que há um medo exagerado e que este foi se instalando entre os antropólogos. Medo de que o foco na diversidade, na diferença,

[…]possa acabar deixando-nos com pouco mais a dizer senão que nos outros lugares as coisas são diferentes e que a cultura é o que a cultura faz. Esse medo intensificou-se tanto, na verdade, que nos conduziu por rumos sumamente conhecidos, na tentativa, a meu ver mal concebida, de aplacá-lo. (GEERTZ, 2001, p. 54)

Na verdade, não se trata, segundo o autor, de defender o relativismo, mas sim a forma como o anti-relativismo se apresentou, esta é que foi mal elaborada. O foco se intensifica, ao invés de traçar inúmeras proposições de diversos antropólogos contemporâneos, sobre as questões da “Natureza Humana” e da “Mente Humana”, as quais o autor julga como pontos importantes dessa discussão, ou seja, historicisismo radical x empirismo primitivo. Para o autor, a questão principal está em como entender, analisar e interpretar fatos que, na verdade, são indiscutíveis.
Bem, nesse momento do texto aparecem os movimentos que concebem a ideia de cultura. A concepção naturalista de um lado e do outro a concepção racionalista. Estas, segundo Geertz (2001), possuem formas bastante diversificadas, não concordando entre si a não ser na caracterização geral. Então, numa tentativa de “banir o espetáculo do relativismo” o que aparece é um empreendimento desordenado de esforços, cada qual visando interesses e direções próprias em defesa de suas causas. Vale destacar aqui que este autor possui uma linguagem muito particular, na qual envolve sutileza e ironia, deixando bastante evidente quando arremata um pensamento com “ o pecado pode ser um só, as propostas de salvação são muitas”. Ele reforça ainda que sua crítica recai sobre a forma exagerada como se opõem ao relativismo e não aos programas de pesquisas que se ligam às correntes que fazem essa crítica (GEERTZ, 2001, p. 55).
O texto adentra um pouco mais no âmbito da Natureza Humana para o qual o autor redige severas críticas, ora ao determinismo biológico, ora às imposições advindas dos juízos culturais, bem como a legitimação de malabarismos conceituais e uma recorrência ao funcionalismo como amparo anti-relativista. O autor acrescenta também que a introdução da ideia de desvio, vista a partir do afastamento de uma norma inseparável, é algo abominável, haja vista que tais argumentos são forjados no fato de que a natureza humana independa do contexto (GEERTZ, 2001, p. 60).
Com relação a questão da Mente Humana, Geertz é mais sucinto, como ele mesmo se coloca. A tendência é a mesma de ver a como superficial a diversidade e como profunda a universalidade. O que difere da questão da Natureza  Humana é que esta aponta os problemas para o relativismo moral, enquanto a outra aponta para o relativismo conceitual. Esse panorama faz com que as atenções se voltem para as concepções de “desvio social” e “pensamento primitivo” seguindo as duas orientações. O autor explica ainda que há uma diversidade de perspectivas e que estas trazem contribuições para a análise da cultura e sobremodo o nosso modo de pensar. Assim, a questão da Mente Humana propõe o desarme da diversidade cultural, bem como a desconstrução da alteridade acontece na Natureza humana. No entanto, existe mais profundidade nessa discussão que a torna bem mais ampla do que apenas os que estão em debate nos parâmetro relativistas. Assim, "Examinar dragões, não domesticá-los ou abominá-los, nem afogá-los em barris de teoria, é tudo em que consiste a antropologia. [...] Tranquilizar é a tarefa dos outros, a nossa é inquietar" (GEERTZ, 2001, p. 65).
Geertz (2001) acredita que a disponibilidade para mudanças provoca inquietações necessárias ao avanço da ciência. Que a antropologia tem em seu vanguardismo o fato de que “fomos os primeiros a insistir em que vemos a vida dos outros através das lentes que nós próprios polimos e que os outros nos veem através deles”. Para finalizar, o autor acrescenta que seria lastimável e que não é possível um recuo a essa altura, diante de tantos avanços no sentido, significado e percepção dentro de um contexto, para algo superficial em torno do “tem que ser assim”.
Em suma, trata-se de um texto inquietante, provocador, com um vocabulário imprevisto. Suas ideias servem de instrumento para uma reflexão e, para tanto, faz-se necessária uma atenção especial, pois em um “piscar de olhos” podemos perder o foco e direções da leitura, bem como da interpretação, tamanha profundidade das ideias apresentadas pelo autor em torno de seus argumentos.


[1] Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFS.