sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Identidade étnica, identificação e manipulação

Roberto Cardoso de Oliveira. “Identidade Étnica, Identificação e Manipulação”. In: Identidade, Etnia e Estrutura Social, 1976.

Roberto Cardoso de Oliveira, pós-doutorado pela Harvard University (1972), doutorado em Sociologia (1966) e graduado em Filosofia (1953) pela Universidade de São Paulo. Foi professor em várias universidades, pesquisou nas áreas de epistemologia da Antropologia, identidade, etnicidade e cidadania. Foi autor e organizador de vários livros, entre eles: “O Trabalho do Antropólogo”; “Nacionalidade e Etnicidade em Fronteiras”; “Sobre o Pensamento Antropológico” e “Identidade, Etnia e Estrutura Social”.
Neste capítulo, escrito nos anos 70, o autor objetiva discutir o conceito de identidade étnica, descrever algumas modalidades de sua constituição, possibilidades de sua explicação e manipulação. O contato interétnico, diz Oliveira, é um dos fenômenos mais comuns na contemporaneidade, pois parte das relações entre indivíduos e grupos distintos, sejam nacionais, transnacionais, raciais ou culturais. Esse contato deu um grande boom graças ao processo de globalização, diminuindo e expandindo, ao mesmo tempo, o mundo de hoje.
O conceito de grupo étnico deve ser concebido como um “tipo de organização social” que possui características de auto-atribuição e atribuição por outros com propósitos de interação que se relaciona diretamente a identidade étnica. Um grupo étnico agrega uma população que partilha uma cultura comum. Os indivíduos ou os grupos étnicos têm sido classificados a partir de seus traços culturais particulares que são visíveis. As diferenças passam a ser agora entre culturas, não entre organizações étnicas que podem ser relacionadas como um conjunto de traços culturais, os quais conduzem as análises sobre as formas culturais manifestas. Essa definição de grupo étnico designa uma população que:
a) “se perpetua principalmente por meios biológicos”;
b) “compartilha de valores culturais fundamentais, posto em prática em formas culturais num todo explícito”;
c) “compõe um campo de comunicação e interação”;
d) “tem um grupo de membros que se identifica e é identificado por outros como constituinte de uma categoria distinguível de outras categorias da mesma ordem” (Barth, 1969, p. 10-11). Para Oliveira, a identificação étnica se dá quando uma pessoa sugestiona o uso de termos raciais, nacionais ou religiosos para se identificar e ao mesmo tempo aos outros comuns como uma noção de grupo.
É importante frisar que é no nível coletivo ou social que a identidade se edifica e se realiza. Já a sua expressão étnica, os mecanismos de identificação são fundamentais, porque eles refletem a identidade em processo assumido por indivíduos ou grupos em diferentes situações concretas. Em todos os âmbitos a identidade possui um conteúdo marcadamente reflexivo e/ou comunicativo que supõe um código (signos) de categorias a fim de orientar e desenvolver as relações sociais como um sistema de oposições ou contrastes. A identidade étnica é um meio de diferenciação em relação a algum indivíduo ou grupo que se confrontam e se afirmam negando ou aceitando a outra identidade visualizada.
Percebe-se que a identidade étnica emerge ou é ativada em situações particulares, principalmente de conflito. Nas relações interétnicas em conjunto com a dinâmica de fricção interétnica, as relações sociais se dão em termos de dominação e sujeição do indivíduo em relação ao grupo étnico pertencente como se verá nos exemplos a seguir: (I) “A Identidade em contextos intertribais” e (II) “A identificação no confronto com os brancos”:
(I) De uma coisa já sabemos, que a identidade contrastiva e o sistema de referência ideológico são formas de atualizar a identidade étnica. Por exemplo, em regiões interculturais como o alto Xingu, diferentes grupos indígenas, em interação, afirmam suas respectivas identidades por meio de um sistema de referência ou de categorias construídas como uma ideologia de relações intertribais, principalmente em relação aos de “fora”. Nessa região, os matrimônios entre os indivíduos dos diferentes grupos sociais produziram um sistema de relações sociais em termos do qual um indivíduo sempre terá alternativas para sua identificação tribal, seja cumprindo a regra da patrilateralidade, quer invocando a matrilateralidade. Como regra secundária, um indivíduo também poderá invocar seu conhecimento da língua e o lugar de nascimento como indicador de pertinência histórica. Infelizmente em regiões onde a colonização foi mais intensa, como a do Chaco, às margens ocidentais do rio Paraguai, território brasileiro, não permitiu que sobrevivessem nos dias de hoje sistemas de relações intertribais que nem a do alto Xingu e do Rio Negro. Mas alguns fenômenos podem ser observados e entendidos através da concepção das identidades étnicas (ou tribais). Aqui Oliveira faz menção à manipulação de identidades feitas por um koixomunetí (médico-feiticeiro) da aldeia Terêna denominada Cachoeirinha. É a história do índio F.S, filho de pai Layâna e mãe Terêna, ambos, subgrupo Guaná (estes se fundiram com diversos outros grupos, remanescendo com maior intensidade, a etnia Terêna). Este koixomunetí afamado em ambas as aldeias joga com suas “identidades virtuais” dependendo das circunstâncias e das pessoas com quem interage. Outra forma de identificação em contextos intertribais, é a chamada “identidade histórica” aqui mencionada os Kinikináu que por ser um grupo minoritário e estigmatizado, para efeito de competição contrastam sua identidade com os seus vizinhos Terêna. Ela emerge sempre quando se pretende marcar seus direitos sobre a terra. Entretanto, pode ser renunciada dependendo das circunstâncias, mas que a qualquer momento pode ser invocada, atualizada. Os Kinikináu na falta de um grupo étnico de referência apelam à sua historcidade para se representarem como categoria étnica num sistema ideológico determinado.
(II) As relações interétnicas não se dão apenas em sistemas de interações intertribais, dão-se também em situações de contato entre índios e brancos e status sociais, sendo que esta relação é sempre de dominação e sujeição. Tais fenômenos se manifestam em conformidade com a diversidade das situações de contato. As relações interétnicas envolvem etnias de escalas diversas. Dentre os casos que mais afetam e desagregam os grupos indígenas em contato com a sociedade nacional, estariam às crianças que despertam desde cedo uma identidade negativa que se prolonga até a maturidade. O autor relata um caso de manipulação de identidades entre índios e brancos a partir de terras de reservas indígenas onde habitavam não índios - arrendatários de terras. O caso é a respeito de um mestiço residente na aldeia Mariuaçu, dentro da reserva supervisionada pelo “Posto Indígena Ticunas”. O grupo familiar em foco preocupava-se em identificar seus membros mais jovens, filho de um mestiço (de pai branco e mãe Tukúna) e de uma Tukúna. Dentro dos princípios estruturais da etnia Tukúna essas crianças jamais poderia ser identificados como membros desta etnia, posto que esta se recebe pela linha paterna. O avô das crianças, sogro do mestiço, percebendo que a não incorporação dos seus netos na comunidade Tukúna constituía uma ameaça para eles aos seus direitos sobre a terra da reserva, promoveu a identificação étnica dos novos membros de sua família a etnia Manguari recebendo nomes do clã materno. Esta era uma pressão vista não só do lado da comunidade Tukúna de Mariuaçu, ciosa de não permitir intrusos em suas terras, mas também do posto indígena que descrimina os moradores não índios da reserva. A decisão do sogro ao ativamento da identificação étnica de seus netos e genro é sintomática da sociedade nacional afirmando seus direitos a terra e a proteção numa região de conflitos entre brancos e índios.
Enfim, Oliveira expõe seu método dizendo que partiu de uma abordagem estruturalista. Trata-se de apreender “modelos conscientes”, pois não se pretendeu esgotar todas as possibilidades de emergência da identificação étnica. Nem se poderia esgotar. Os argumentos das modalidades desse tipo de identificação está contido na ordem do discurso, particularmente de cunho ideológico. O conteúdo cultural proposto significa valores que são fatos empíricos “passíveis de serem descobertos” (p. 21), pois são pontos de vistas dos próprios agentes culturais. Nele coexistem diferentes valores no interior de uma mesma cultura; mas significa também “padrão”. Nesse sentido, “ela é passível de uma certa escolha ou opção em situações determinadas (...)” (p. 22). A cultura do contato, portanto, pode ser entendida para além de um sistema de valores, sendo o conjunto das representações que o próprio grupo étnico faz da sua situação de contato em que está inserido e se identifica a si próprio e aos outros.

Por Mateus Neto

7 comentários:

alessandra disse...

As identidades étnicas seriam entendidas a partir da oposição, do contraste, da negação de alguns traços que identifica o outro e que por sua vez reafirmaria essa identidade. Os traços que se apresentam, mais visíveis e gritados pelos grupos(auto-afirmação) são traços culturais que podem ser ressignificados ou esquecidos a partir de um contexto. Esses traços seriam do particular e do geral social, estariam num jogo de relações opostas mas que se complementariam entre si.Foi isso que entendi,rsrs

Mateus Neto disse...

Acredito que sim. Mas a Identidade étnica cabe ser pensada dentro de um conceito que inclui ou é ativado a partir de traços étnicos, religiosos e nacionais, ou seja, é pensado a partir de um "tipo de organização social", onde os mecanismos de identificação (aqui digo, ideológicos) são fundamentais porque eles refletem a identidade em processo assumido por pessoas ou comunidades em diferentes situações de contato. Tanto a identidade quanto a ideologia fornecem aos indivíduos a condição necessária para um maior processo de maturação que faz com que indivíduos se identifiquem e se incluam em processos ligados a traços culturais de identidades comuns. A identidade ética, acredito, é mais específica. Bem, se eu entendi equivocadamente, sei que vocês irão me corrigir. Rsrsrs. abraços

Frank Marcon disse...

Duas observações: 1) "os traços" identitários não existem por si só, mas na ativação que os os sujeitos fazem para significa-los como traços seu e do grupo. Na identificação de quem são os outros ocorre o mesmo, traços que são referidos como de diferenciação para "conosco" são atividados para significar a diferença. Poderiamos afirmar que em varias discussões sobre identidades em geral este é um ponto central. 2) A identidade para RCO é ideológica, ocorre no contexto de uma construção metadiscursiva sobre nós e os outros, que no caso da etnia (especificamente), sempre remete a uma idéia de origem comum (esta seria conceitualmente uma particularidade das identidades étnicas), o arcabouço ideológico que justifica uma diferença de origem entre os grupos sociais(que pode ser implicada na idéia de origem comum pela idéia de parentesco ou raça ou território um de onde ou como somos).

Aline disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Aline disse...

Muito interessante quando agente ler o texto de Hall e Roberto Cardoso como eles têm uma relação bastante intrínseca. O que mais me chama atenção é na forma como os autores trabalham a questão da identidade sempre com referência às noções de: código (que é uma atribuição da comunidade e por ele identificada), diferenciação (o estabelecimento da fronteira entre eu/outro) e identificação (que se dá entre a relação reconhecer a mim e reconhecer ao outro). Tudo isso perpassando por uma avaliação que envolve “reconhecimento”, “afirmação” e “interrelação”.
Acho também interessante a forma como Cardoso, em específico, trata a identidade sob o referencial do “reconhecimento político”, seja no sentido de afirmação em relação a sociedade e suas estruturas sociais, seja em relação ao próprio grupo, quando a comunidade ou os indivíduos acionam a identidade para demarcar uma relação de poder, dominação.
Por fim, ressalto a influencia que percebo do estudo de Roberto Cardoso com os estudos sobre o “reconhecimento como base moral”. Isso me lembra muito os estudos de Hanneth, quando o autor trabalha a identidade como um processo de afirmação do indivíduo e da sua identidade como um precesso incessante de mediação entre a forma como eu me vejo e a forma como os outros me percebem (que é também uma análise presente em Hall). Podemos perceberemos isso com o exemplo dado sobre o mestiço, o qual não tem sua identidade reconhecida perante a comunidade e, por conta disso, vive sobre um conflito (interno e externo) de afirmação de sua identidade.
Bem, por fim mesmo, tem um texto Cardoso que é bem semelhante a este: “Identidade étnica, reconhecimento e mundo moral”. Quem se interessar pela temática, pode aprofundar com esta leitura.
Aline F.

Tania disse...

Mesmo não trabalhando com questões étnicas, percebo nesse texto do RCO uma grande influência teórica no sentido que ao se pensar grupos identitários urbanos, por exemplo, é super importante observar o que ele coloca sobre o pensar o grupo e os outros que não estão nele. Você se reconhecer como parte de um grupo, com certas características e perceber nos outros características que não se enquadram, toda a questão da diferença, né isso!
Outra coisa também é a discussão da identidade ideológica, que é perceptível nos discursos de grupos que escutam rock, por exemplo.
Pelo título do texto, nunca pensei que pudesse ser aplicado também em grupos urbanos!
:P
Não sei se viagei demais e não disse nada com nada, mas tentei trazer o texto para temáticas que estou com maior contato.
É isso!

alessandra disse...

Olá, sobre o texto, entendi que grupos étnicos são construídos devidos a particularidades biológicas, culturais,e processos de interação entre seus membros.Isso os garante meios de classificação por eles mesmos e pelos outros, formando assim a identidade social do grupo.E, por estarmos em situação de contato com diferentes grupos, estamos sempre em contraste de identidades. O limite do grupo étnico garante a sua alteridade, a sua legitimidade para seus membros. As relações interétnicas, derivadas da organização social, formam sistemas intergrupais onde os indivíduos se contextualizam situações de conflitos, devido as posições de hierarquias ou status de determinados grupos que sobrepõe-se à outros. Interessante quando o autor mostra o caso das crianças que habitavam uma região próxima aos índios Terêna e falavam de índios como algo abstrato, porém mais relevante foi as próprias crianças indigenas tratarem dos índios do mesmo modo mesmo em menor grau. Com isso, podemos ver que a intolerãncia com algo a que não conhecemos é algo apreendido desde a infância, e poderá ser perpetuado em forma de consciência por toda vida. Assim, é necessário analisar o contato interétnico como contexto de culturas de sobreposição, por valores culturais e ideológicos. abraços, Alessandra Souza.