terça-feira, 10 de maio de 2011

“PUXO O CAVAQUINHO PRA CANTAR DE GALO”: ESTILO DE VIDA, CONFLITO E SOLIDARIEDADE NO CIRCUITO DO CHORO DE ARACAJU.

(por Daniela Moura Bezerra)

A proposta do presente texto é a de apresentar brevemente os encaminhamentos adotados para a elaboração de minha Dissertação de Mestrado em Sociologia (em andamento), um trabalho que tem dado continuidade as discussões apresentadas na monografia de conclusão de curso em Ciências Sociais, no ano de 2008.

Em linhas gerais, o objetivo é o de estudar a presença e a consolidação do estilo musical conhecido por choro, na cidade de Aracaju/ SE. Segundo Fortuna (1998), a abordagem sonora da cidade, sendo a música apenas um desses sons, representa uma faceta que permite conhecer e entender as trajetórias, configurações sociais, os estilos de vida e as formas de estrutura social. A idéia defendida aqui é a de que a prática do choro – seja por tocá-lo ou por freqüentar os locais em que este pode ser ouvido – acaba por definir um estilo de vida com padrões particulares na cidade. Conforme argumenta Featherstone (1995), os estilos de vida representam as disposições, práticas culturais e formas de lazer que possibilitam a demarcação de fronteiras entre grupos. Tais fronteiras são estabelecidas principalmente pelo acúmulo de prestígio e de critérios legitimadores em um dado campo social. Os estilos de vida, portanto, podem servir de demarcadores espaciais das cidades, que são entendidos neste caso como circuitos. Utilizo tal categoria para descrever e analisar os usos que um determinado grupo faz do espaço urbano (MAGNANI, 1999).

O circuito aracajuano do choro é composto atualmente por sete grupos, que se reúnem em bares, restaurantes e residências, localizados em diferentes pontos da cidade. A estratégia adotada para a identificação desses conjuntos foi a de utilizar as indicações dos próprios participantes para encontrá-los, o que além de indicar os espaços, revelou a existência de rivalidades no circuito, tendo em vista que o fato de não mencionarem outros grupos não se devia ao não conhecimento dos mesmos, mas sim a falta de afinidade, quer musical, quer afetiva entre eles. Deste modo, é possível afirmar que tal circuito encontra-se fragmentado e no conflito os grupos reivindicam para si o título de “verdadeira boemia aracajuana”.

Entender quais são os critérios ativados ao se tomar o próprio choro enquanto estilo de vida constitui, deste modo, o cerne do trabalho. A análise das entrevistas revelou na tentativa de legitimação cada grupo destaca ou ativa uma particularidade, tais como: ser um virtuoso (músico excepcional), ser o grupo mais antigo, promover constantemente eventos relacionados ao choro, ser o grupo mais atuante, entre outras. Estes são considerados nesse universo musical critérios legítimos. Contudo, a maneira que o circuito está organizado dá indicações da existência de outros recursos, talvez até de maior peso nesse processo, perceber quais são estes é o que se propõe a pesquisa.

O desenvolvimento metodológico do trabalho acorreu em algumas etapas. Após a identificação do atual circuito, foi feito um levantamento a respeito do que se tem escrito a respeito do choro. Foram lidas reportagens de revistas especializadas e jornais locais, livros que contam a história do estilo musical no Brasil e trabalhos acadêmicos referente ao mesmo. Também foram revistos os vídeos, anotações de campo e transcrições feitas no desenvolvimento do trabalho de monografia. Por fim, foi realizada a observação de campo que consistiu em frequentar os locais produtores do choro em Aracaju.

A proposta de Dissertação está estruturada em três capítulos, o primeiro, intitulado Por uma sociologia da música: as representações do choro no cenário musical brasileiro, inicialmente situa a proposta metodológica do presente trabalho. Em seguida, apresentamos o que para fins de análise classificamos de “histórias oficiais” sobre o gênero no país e com o intuito de se perceber de que maneira as narrativas, a respeito do seu desenvolvimento no Brasil, têm servido como uma estratégia de legitimação na escolha do ouvir e do executar o choro. Também discutimos o papel da Rádio Aperipê na sustentação e manutenção do estilo musical e a criação do Projeto Cidade do Chorinho, pelo governo estadual.

No segundo capítulo, Discursos e práticas de diferença e identificação no circuito do choro de Aracaju, apresentamos como o choro tem se constituído em um estilo de vida, pois acreditamos que esse tipo de música tem desempenhado um papel central na vida do grupos estudados. Posteriormente, analisaremos os discursos e práticas de diferença e identificação que compõem o circuito do choro e que têm contribuído para o surgimento de ralações de rivalidade e solidariedade entre os grupos. O último tópico apresenta um estudo comparativo entre as rodas de choro e casas de serestas encontradas no Bairro Industrial da cidade. Para isso, buscamos perceber se a diferenciação entre os estilos é uma questão de técnica musical ou de contexto social.

No terceiro e último capítulo, A busca por legitimidade no contexto das rodas de choro da cidade, fazemos um estudo sobre os trajetos dos músicos no circuito, ou seja, das escolhas feitas por estes no circuito. A idéia defendida aqui é de que essas escolhas em muito dependem de suas histórias de vida e que, por sua vez, conferem prestígio ou não a eles. Também serão abordadas as retóricas identitárias que constroem a figura do ser chorão em Aracaju.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FEATHERSTONE, Mike; SIMÕES, Julio Assis (Trad.). Cultura de consumo e pós modernismo. São Paulo: Studio Nobel, 1995
FORTUNA, Carlos. Imagens da cidade: sobre a heurística das paisagens sonoras e ambiente sociais urbanos. Coimbra: Centro de Estudos Sociais, Nº 104, 1998.
MAGNANI, Jose Guilherme Cantor. Mystica urbe: um estudo antropológico sobre o circuito neo -esotérico na cidade. São Paulo: Estudo Nobel, 1999.

7 comentários:

Tania disse...

Dani, queria entender melhor como você está abordando o papel da Rádio Aperipê como "mantedora" ou "divulgadora" do choro na cidade.

daniela disse...

Oi Tânia, para responder essa questão vou fazer um breve resumo sobre a história do choro no Brasil. Durante os primeiros anos das rádios no país houve a necessidade de se contratar grupos fixos de músicos, conhecidos por conjuntos regionais, pois se houvesse algum problema técnico estes poderiam assumir a programação da rádio tocando ao vivo. Eram contratados para comporem os regionais músicos que tinham a capacidade de tocar o choro, um estilo musical considerado nesse universo como de difícil execução. Essa estrutura vai perdurar nas rádios das grandes cidades (Rio de Janeiro, São Paulo, por exemplo) entre meados da década de 20 até 1940 aproximadamente. Em cidades menores as rádios virão mais tarde, como é o caso de Aracaju que tem uma rádio inaugurada somente em 1939, com a Rádio Difusora que hoje é a Rádio Aperipê. É essa emissora que vai manter os regionais e mesmo com a extinção deles continua com programas dedicados ao choro (Domingo do Clube e Choros e Canções). Além disso, na década de 80 e 90 patrocinou festivais de música em que esse tipo de música predominava. Atualmente a rádio continua a patrocinar eventos menores (Feijoada do chorinho) e em datas comemorativas da emissora diferentes grupos de choro da cidade são convidados a se apresentarem ao vivo, reproduzindo aquele formato antigo de regional que mencionei. Os músicos mais antigos que entrevistei, inclusive, participaram em algum momento de um regional dessa rádio.

Felipe Araujo disse...

Oi Daniela.

Alguns grupos de choro em Aracaju também são associados a bairros, não é? Isso é fixo?

Mateus Neto disse...

olá!

gostaria de saber como você usa o conceito de "circuito". sim, gostei da pergunta do felipe...

abraços

daniela disse...

Oi Felipe. Sobre o seu questionamento, seis dos sete grupos de choro encontrados em Aracaju se reúnem em locais fixos, sempre no mesmo dia e horário. Destes seis, um dos grupos se reúne em residência e o restante em restaurantes ou bares. Cada um desses pontos de encontro está localizado em um diferente bairro da cidade (Bairro Industrial, Santo Antônio, Atalaia, Centro, Bairro América e Getúlio Vargas). O sétimo grupo, é o mais recente de todos e não tem um local fixo de apresentação, mas costumam se apresentar em qualquer um dos outros locais onde é possível encontrar o choro. Mas apesar dos grupos tocarem em um mesmo local em determinados dias da semana, eles também costumam se apresentar em outros espaços. Respondi sua pergunta?

daniela disse...

Bem Mateus, eu tenho usado a idéia de circuito proposta por Magnani (1999) como o meu recorte espacial. Segundo o autor os circuitos são formados quando se busca uma prática ou serviço que tem uma existência observável aos seus participantes. Então quando falo a respeito do choro em Aracaju quais são os locais que se destacam? A partir desse questionamento direcionado aos músicos e ouvintes do choro de Aracaju, fiz a identificação do circuito, os sete grupos, seis espaços. A idéia que tenho usado de Magnani é a de que aqueles indivíduos que partilham de um estilo de vida em comum poderão demonstrar uma certa freqüência a determinados locais, sendo que essa freqüência poderá servir até mesmo como um critério legitimador de um determinado estilo de vida.

Wagner disse...

Daniela,você poderia informar para os amantes do choro quais são os grupos e os bares que eles se apresentam?