quinta-feira, 2 de maio de 2013

Resenha

Introdução do Livro "A invenção das tradições", de Eric Hobsbawm e Terence Ranger


Por Wener Brasil

O objetivo da introdução do livro “A Invenção das Tradições” é fazer uma análise crítica e conceitual da noção de tradição e de costume, bem como tematizar as implicações do que é denominado pelos autores de invenção das tradições no processo de construção do Estado-nação.
A expressão "tradição inventada" é entendida de maneira ampla como sendo as práticas reguladas de natureza ritual ou simbólica, que incorporam valores e comportamentos definidos através de repetição. Tal repetição acontece devido a novas situações e reações que se referem ao antes, como numa ideia de continuidade.

No texto, a diferença entre tradição e costume (vigentes nas sociedades tradicionais) é ressaltada. A tradição inventada teria a característica de imposição de práticas fixas como repetições, já o costume não impediria que a própria dinâmica social implicasse em inovação e modificasse as práticas e rituais até certo ponto.

É destacado pelo autor que todo esse processo da invenção de tradições caminha pela ritualização e formalização, sempre se referindo ao passado, impondo a repetição. Mas, pode-se dizer que toda tradição é inventada? Em tal sentido pode-se dizer que sim, ou seja, a depender da maneira como ela se constitui, a permanência das regras, ou ainda, quando a reprodução é forçada ou institucionalizada com rigidez.

Em síntese, são expostas três categorias relativas às tradições inventadas desde a Revolução Industrial: a) as que estabelecem ou simbolizam a coesão social ou as condições de admissão de um grupo ou de comunidades reais ou artificiais; b) as que estabelecem ou legitimam instituições, status, ou relação de autoridade e c) aquelas cujo propósito principal é a socialização, a inculcação de ideias, sistemas de valores e padrões de comportamento.

Para concluir, um aspecto importante é avaliar qual a ligação entre a invenção e a espontaneidade. Na verdade, se tem uma ideia que essa criação parte de conjecturas políticas, podendo até serem inventadas para a manipulação. Entretanto, fica claro que, para os autores do texto, as mudanças nos costumes são processuais e partem das necessidades coletivas, construídas através das relações de poder e de interesses nos contextos de harmonia ou de tensão social, em que as tradições inventadas são ferramentas de regulação.

2 comentários:

Lucas de oliveira carvalho disse...

Uma dúvida. As tradições então estariam subordinadas ao costume? Ou seja, as tradições seriam mecanismos de estabelecer, acomodar, de formalizar e por vezes institucionalizar,valores,ideias, modos de ser e agir, difundidos pelos costumes, a passo que, a cada mudança nos costumes, pelos inúmeros motivos abordados, novas tradições teriam que ser inventadas(ou reinventadas) para dá continuidade a este processo de formalização e institucionalização dos costumes? Ou essa relação entre costume e tradição pode se dá também de forma autônoma?

Diogo Monteiro disse...

A "invenção das tradições" é operacionalizada com bastante dinâmica em contextos de tensões sociais. Lembro-me, neste sentido, de um trecho do pensamento de João Pacheco de Oliveira sobre os índios do Nordeste que, para recriarem e fortalecerem a sua identidade étnica num contexto intenso de contato e mistura com a sociedade envolvente, acionavam diversas metáforas que os associavam aos seus ancestrais mais remotos, observando-se como "pontas de rama" originadas de "troncos velhos" - os antepassados e seus modos de vida -, isso, provavelmente, oportunizaria a aquisição de vantagens políticas e sociais necessárias à perpetuação do grupo.