domingo, 16 de junho de 2013

Uma Descrição Densa: Por uma Teoria Interpretativa da Cultura

Por Diogo Monteiro

Clifford Geertz (1926-2006) foi um antropólogo estadunidense professor da Universidade de Princeton, em Nova Jersey. É o fundador da Antropologia Hermenêutica ou Interpretativa, que floresceu a partir dos anos 1950, representando um divisor de águas na teoria antropológica contemporânea.
A epistemologia de Geertz se desenvolveu como um contraponto ao modelo estrutural Levi-straussiano. Para o estruturalismo, o conhecimento deveria originar-se da elaboração de conceitos abstratos que explicariam, de modo homogêneo, os diversos contextos empíricos observados pelo analista. Já o viés interpretativo, propagado por Geertz, baseava-se na ideia de que a compreensão dos fenômenos sociais deveria partir dos casos concretos - da empiria - através dos quais a elaboração de teorias amplas seria possível.
Estudioso dos temas sobre religião, Geertz realizou pesquisas de campo na Indonésia e no Marrocos. Dentre as suas obras publicadas, destacamos: Islam Observed (1968), A Interpretação das Culturas (1973), Negara. The theatre-state in Bali (1980), O Saber Local (1983), Obras e vidas (1988), After the fact (1995) e Nova Luz Sobre a Antropologia (2000).
Em Uma Descrição Densa: Por uma Teoria Interpretativa da Cultura - primeiro capítulo da obra A Interpretação das Culturas - Geertz se propõe, em termos gerais, lançar novas bases para a constituição do saber antropológico. Neste sentido, o autor trata da especificidade da cultura como objeto de análise da antropologia, da sua natureza enquanto conceito antropológico e das peculiaridades do fazer etnográfico.
O autor inicia suas reflexões questionando a validade da aplicação universal de conceitos científicos para a explicação de diversos fenômenos. Ao combater a versatilidade do uso destes conceitos, afirmando que eles não são passíveis de explicar tudo o que é humano, Geertz defende o emprego limitado do conceito de cultura para a área da Antropologia, tornando-o mais especializado e teoricamente mais poderoso (GEERTZ, 1978, p. 14).
No intuito de superar o uso corrente do conceito de cultura estrutural-funcionalista, visto como “aquele todo complexo”, que inclui os comportamentos universais das sociedades humanas, Geertz observa na cultura o seu caráter “semiótico”. Como Max Weber, Geertz acredita que o homem é um animal amarrado a teias de significados que ele mesmo teceu e, a cultura, seria essas teias e a sua análise. Em suma, ela não seria uma ciência experimental em busca de leis, mas uma ciência interpretativa à procura do significado (GEERTZ, 1978, p.15).
Geertz indica que para compreender a ciência antropológica não é suficiente debruçar-se sobre os seus resultados, suas teorias ou inteirar-se do que os seus entusiastas falam sobre ela. Para isso, é necessário observar o que os seus praticantes fazem: a etnografia, um esforço elaborado para uma “descrição densa”, cujo objeto seria a análise “da hierarquia estratificada de estruturas significantes, em termos das quais, segundo o exemplo extraído de Gilbert Ryle, os tiques nervosos, as piscadelas, as falsas piscadelas, as imitações, os ensaios das imitações são percebidos e interpretados”. (GEERTZ, 1978, p. 17).
Ao observar a cultura como um texto, Geertz sugere que fazer a etnografia é como tentar ler – no sentido de “construir uma leitura de” – um manuscrito estranho, desbotado, cheio de emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios de comportamento modelado (GEERTZ, 1978, p. 20).
Geertz polemiza acerca do caráter objetivo ou subjetivo da cultura. Ao combater as proposições da etnociência – antropologia cognitiva/psicológica – que percebe a cultura como uma manifestação subjetiva da mente humana, o autor enfatiza a sua essência pública, afirmando que os significados dos comportamentos são compartilhados pelos indivíduos que convivem em determinados contextos.
A etnografia, segundo Geertz, tem como fim situar o pesquisador entre os nativos, sem que para isso ele tenha a pretensão de tornar-se um deles. O que se pretende é conversar com eles, alargar o universo do discurso humano. Neste particular, a cultura se desvencilharia da sua tendência hegemônica e abriria espaço para a audiência das vozes dos nativos, possibilitando a compreensão dos significados das suas condutas através dos seus pontos de vista particulares.
Deste modo, Geertz nos orienta a tratar as descrições etnográficas como “construções de construções” dos nativos, encaradas em termos das interpretações às quais pessoas de uma denominação particular submetem suas experiências. Assim, os textos antropológicos seriam interpretações de segunda e de terceira mão – somente o “nativo” faz interpretação de primeira mão – são ficções, algo construído, modelado, não que sejam falsas, não-factuais ou apenas experimentos de pensamento (GEERTZ, 1978, p. 25-26).
A descrição densa, para Geertz, possui quatro características principais: é interpretativa, interpreta o fluxo do discurso social, fixa-o em suportes pesquisáveis com o intuito de salvá-lo da extinção e é microscópica. Para esta última propriedade, o autor estabelece que por meio da análise empírica extensiva de contextos circunscritos - de assuntos extremamente pequenos-, a Antropologia acessa grandes temas e realiza análises mais abstratas. “Os antropólogos não estudam as aldeias [...] eles estudam nas aldeias”. (GEERTZ, 1978, p. 32).
Geertz observa a Antropologia Interpretativa como um conhecimento científico não-cumulativo, em perpétua construção, cujos resultados são frequentemente contestáveis. Segundo o autor, o progresso da ciência não se dá através do consenso relacionado às pesquisas anteriores, mas por meio do debate e contestação das inferências estabelecidas. Apesar disso, o autor constata que o grau de validade de dado referencial teórico dependerá do seu maior ou menor poder de explicação para os novos problemas analisados.
Portanto, os pressupostos teóricos de Geertz colaboraram para a renovação da ciência antropológica contemporânea. Alvo de apreciações que a rotulavam como perspectiva acrítica – ela obscurecia as mazelas vivenciadas pelos grupos nativos – e da acusação de promover “racismo às avessas” – a valorização da cultura alheia como critério para o julgamento pessimista da sociedade ocidental – a antropologia de Geertz revelou, na realidade, os meios possíveis para a superação da tendência etnocêntrica que ainda vigorava na prática antropológica. 

Desta forma, Uma Descrição Densa: Por uma Teoria Interpretativa da Cultura, ao apresentar uma escrita complexa, eivada de termos científicos, aprofundando debates epistemológicos acerca da natureza da prática etnográfica, será lido com grande proveito por estudantes e professores universitários das áreas da Antropologia, Sociologia, História e demais interessados em aprofundar seus conhecimentos acerca das teorias antropológicas contemporâneas.


Referência bibliográfica

GEERTZ, Clifford. Uma Descrição Densa: Por uma Teoria Interpretativa da Cultura. In:_____. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978. Cap. 1, p. 13-41. 

7 comentários:

Thiago Calligares disse...

Tem o pdf desse livro?
pode me enviar no peixe_p@hotmail.com ²²

Ytalo Matheus disse...

https://identidadesculturas.files.wordpress.com/2011/05/geertz_clifford-_a_interpretac3a7c3a3o_das_culturas.pdf

O Link q vc procura...

Excelente resumo Diogo!!

HR disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
HR disse...

Muito boa a resenha. Elucida de forma prática a compreensão do texto, que é fantástico, assim como o autor.

Nerdalhando disse...

Posso compartilhar seu texto no meu blog, com as devidas referências?

LCSilva disse...

Obrigado pelo resumo. Conciso e esclarecedor.

Leni Carvalho disse...

Esclareceu todas as minhas dúvidas.