quinta-feira, 15 de outubro de 2015

RESENHA DE PESSOA, TEMPO E CONDUTA EM BALI

Élida Damasceno Braga [1] 
(elidabraga74@gmail.com)



GEERTZ, Clifford. Pessoa, Tempo e Conduta em Bali. In: A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.


Ao afirmar que o pensamento humano é uma atividade social essencial, Clifford Geertz apresenta suas preocupações em relação a isso já alertando, inicialmente, para a incompletude da temática. O autor se debruça sobre o povo de Bali para observar como as ideias se definem em torno do aparato cultural, como este povo percebe e reage e, por conseguinte, o que pensam, trazendo, assim, elementos para uma análise da cultura. Desse modo, as conexões que se mostram dão sentido para compreender não apenas a sociedade local, mas a humana como um todo.
Geertz (1978) traz os conceitos de cultura e estrutura social em seu texto, abordando-os de forma independente, ou seja, no sentido de que “é preciso compreender tanto a organização da atividade social, suas formas institucionais e os sistemas de ideias que as animam, como a natureza das relações existentes entre elas” (p. 227). O autor informa também a dificuldade de se trabalhar cientificamente o conceito de cultura, haja vista a indefinição do objeto de estudo.
No entanto, o pensamento visto como objetos em experiência com a impressão de significados através de símbolos significantes coloca a cultura no patamar de ciência como outra qualquer. O sentido para estes símbolos significantes é encontrado através dos acontecimentos vividos pelo homem com padrões, que se acumulam culturalmente. Vale salientar que, alguns desses padrões são inerentes à pessoa humana e por isso aparecem em diversas sociedades. Daí que vem a proposição do autor para que se lance um olhar mais atento para as singularidades a fim de que se compreenda a problemática subjacente.
Geertz (1978) destaca ainda a importância da caracterização humana individual. A perspectiva individual, por categorias, perfaz  “o mundo cotidiano no qual se movem os membros de qualquer comunidade, (...) habitado por homens personalizados, classes concretas de pessoas, positivamente caracterizadas e adequadamente  rotuladas” (p.229). Contudo, Geertz (1978) adverte para a não redução da análise cultural apenas à caracterização individual. Isso ocorre devido à falta de um método para analisar a estrutura significativa da experiência. Embora se tenham registradas algumas tentativas de análise cultural no sentido de uma fenomenologia da cultura, uma das que se destacam, segundo Geertz, é a de Alfred Schutz, com tópicos abordados sobre a “realidade principal da experiência humana: o mundo da vida cotidiana enfrentado pelo homem, no qual ele atua e vive”. Esses estudos deram suporte ao autor no sentido de orientá-lo em suas pesquisas.
Em Bali, Geertz (1978) observa uma série de padrões culturais, nos quais a atuação humana pode se dar em termos de ordem temporal, estilo comportamental e identidade pessoal, bastante diversas, mas nem sempre muito claras para os padrões empíricos. O autor descreve os tipos de rótulos aplicados aos indivíduos ali, um tipo de ordem simbólica a ser descrita em: nomes de pessoas, nomes na ordem de nascimento, termo de parentesco, tecnônimos, status e títulos públicos. Para se ter uma ideia, o nome pessoal não possui muita importância social em Bali, pois são raramente usados. Aos demais vão se acrescentando importância, afetando a condição humana com tal estrutura.
Outra questão que aparece no texto de Geertz é a maneira como as pessoas veem o tempo dentro do percurso biológico e também natural na sociedade balinesa. Além da condição pessoal, da definição de pessoa, desde “os nomes ocultos até os títulos ostentados” (p.255), o tempo em Bali é marcado, no geral, de modo qualitativo, no que se manifesta como experiência humana. "Ele é usado para distinguir e classificar partículas de tempo (...) os ciclos são intermináveis e sem um clímax, pois sua ordem não tem significação. (...) Eles não acumulam, não constroem (...) Eles não lhe dizem que o tempo é agora, eles apenas informam que espécie de tempo é" (p.260). 
Sobre a conduta, Geertz (1978) observou que a vida social em Bali é construída em torno do cerimonial, algo próximo à teatralização. Tudo nessa esfera é muito exterior, calculado, pomposo, uma sociabilidade polida e bastante estética. Nesse contexto, termos como a vergonha e o fracasso assumem características marcantes na vida afetiva do povo balinês, tanto no plano interpessoal como no plano coletivo. Contudo, a vergonha para os balineses, está no medo de não cumprir com os papéis sociais propostos, tratando-se de um verdadeiro terror a simples suposição de não atuarem em conformidade com o desempenho público desejado.
Desse modo, a análise cultural lida com formas cheias de significados. Significados estes que não estão diretamente nas coisas, nos objetos, mas lhe são impostos pelos homens que vivem em sociedade. A natureza da integração, da mudança e do conflito cultural deve ser procurada nas experiências dos indivíduos e dos grupos que sentem, percebem, agem e julgam estas simbolicamente, sem esquecer, no entanto, que essas sensações são apreendias e interpretadas. Logo, as estruturas simbólicas que definem pessoas, caracterizam o tempo e ordenam comportamentos. Essas são produto da interação, de como se desenvolvem, bem como o impacto que causam um ao outro (GEERTZ, 1978, p.272).
Portanto, o autor faz uma observação inquietante quando aponta a possibilidade de mudanças culturais na sociedade balinesa. Pensar em um tempo mais dinâmico, um estilo de interação social menos formal e uma condição de pessoa que saísse do quase anonimato, produziriam, assim, mudanças significativas no modo de vida, haja vista esses três possuírem papéis fundantes na estrutura social balinesa: a pessoa, o tempo e a conduta.
Por fim, as questões levantadas nesse texto, tantos modos de vida repletos de valores e significados, são vistos como elementos de controle social. Assim, a cultura ou elementos dessas culturas, contribuem significativamente, com as formas de controle e como definidores de comportamentos sociais. Trata-se, pois, de um estudo de percepção dos indivíduos dentro de suas culturas no sentido de analisar e descrever a estrutura de significados dessas.


[1] Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFS.

7 comentários:

Frank Marcon disse...

Élida e demais, na minha opinião este é um texto enigmático por dois motivos, primeiro porque o autor nos traz uma questão fundamental de sua linha reflexiva que é a ênfase na simbólico, segundo porque ele olha para a análise do simbólico a partir da possibilidade de pensar a estrutura social/política, não do mesmo modo de Lévi-Strauss, mas a partir das questões da vida ordinária, como neste exemplo em que o nome, o tempo e a conduta viram signos de interpretação sobre a sociedade balinesa e ao mesmo tempo um exemplo de como podemos pensar outra sociedades e outra questões a partir de elementos similares. Como podemos partir dos signos (significantes/significados) para uma análise da cultura que não seja excepcionalista e que seja profunda na interpretação e na reflexão sobre a relação entre o simbólico, a estrutura e o social? Fica a dica e também o questionamento para análises análogas ou criativas a partir deste texto. Penso, por exemplo, para provocar Élida (mas poderia provocar a qualquer um a partir de seus interesses de pesquisa), em como os nomes, alcunhas e formas de nomear socialmente (formais ou informais) em um dado sistema social (a polícia, os ambientes prisionais ou socioeducativos) trazem elementos simbólicos interessantes para pensarmos sobre suas formas de organização social, de poder e como estas são representadas e significam entre os que vivenciam tais experiências. Bem, vamos em frente... Aguardamos as leituras!

Diogo Monteiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Diogo Monteiro disse...

Olá Élida e Frank.
O texto "Pessoa, tempo e conduta em Bali", na minha perspectiva, pode contribuir para uma reflexão profunda acerca dos símbolos e seus significados como elementos estruturantes, extrapolando até mesmo contextos excepcionais, restritos, localizados, apesar de o autor não admitir, enfaticamente, essa possibilidade, já que sua proposta destaca o pensamento como algo construído ou padronizado socialmente em contextos específicos. Porém, penso que a contribuição do autor nesse texto, em particular, seria pensar a relação entre o sujeito e estrutura social como um dado dinâmico. Mesmo admitindo que, em Bali, as construções simbólicas acerca das noções de pessoa, tempo e conduta são algo padronizado socialmente, tecendo para o leitor um quadro social que denota, inicialmente, um aspecto de regularidade ou imutabilidade, Geertz, em seu estilo de escrita enigmático (pelo menos nesse texto), reservou as suas páginas finais de para nos revelar, como numa espécie de alcance do clímax narrativo, a sua postura teórica, que devolve ao sujeito a possibilidade de dialogar ou até mesmo assediar a estrutura no sentido de dominá-la e/ou modificá-la. A cultura, para ele, revelaria indícios no sentido da mudança ou da revolução social, percepção tão importante para se pensar a recente e nefasta conjuntura política e social brasileira, caracterizada pela luta incessante de segmentos conservadores - que insistem em observar a sociedade como um bloco monolítico - no intuito de criar toda sorte de obstáculos para a viabilidade das propostas progressistas de inclusão social. Dessa forma, reforço aqui, através das reflexões apresentadas por Geertz e da ótima exposição da resenha de Élida, minha posição ao mesmo tempo política e científica sobre o tema: o que deve ser constante e regular no âmbito social é a mudança. Até breve.

Suene Dantas disse...

Olá pessoal!

O texto do Geertz, muito bem resenhado por Élida, fez-me pensar sobre a implicação do “categorizar” como produtor de lentes para enxergar a realidade social. Acredito que entender a criação de categorias como um mecanismo presente em toda e qualquer sociedade; a realidade como produzida socialmente e constantemente transformada; e a mediação simbólica como o espaço em que o humano encontra e produz sentido através das próprias experiências, sejam a base para pensar o porquê das conexões entre a sociedade balinesa e a sociedade humana de modo geral. Ou seja, a compreensão de que o modo de produzir sentido através dos padrões culturais faz parte das sociedades, permite que o trabalho sobre Bali não se reduza ao local estudado, podendo ser problematizado e ampliado para outros contextos. As especificidades são particulares, mas, esse mecanismo de categorização -seja de pessoas, de papéis sociais, dos ditos “normais” ou “desviantes”; e pelas mais variadas instituições (religiosa, legal, política, médica ou psi)- é um processo social “compartilhado”. Se penso numa das questões centrais do texto: a “concepção despersonalizada da condição de pessoa” (p. 169), diante da constituição de categorias “em relação ao outro”, como o “pai de fulano”, o “avô de sicrano”, processo que, talvez, represente uma negação à individualidade, lembro-me imediatamente do processo despersonalizador presente nas instituições totais. Embora obtenham significados, contextos, e sentidos completamente distintos – pois em Bali, a despersonalização ocorre (também) porque os títulos e as funções sociais são mais relevantes que o nome; já nos hospitais, por conta (também) da massificação e da disciplinarização dos corpos-, ambos implicam a perda de nomes e identificações pessoais. Além dessa negação e retirada das características individuais, uma grande problemática se instala quando tais categorias são concebidas como verdades, logo, impensáveis como plurais ou mutáveis, apesar de serem.

Eliseu Ramos disse...

Olá pessoal!

Massa a resenha Élida! Esse texto do Geertz, na verdade todo o livro "A interpretação das Culturas", me ajuda a pensar a ideia de cultura a) sob uma perspectiva de análise cultural através do aporte simbólico e dos significados que podem ser produzidos pelos usos desses símbolos, b) a partir de sua instrumentalização para o controle e circunscrição social. No texto, as classificações presentes na sociedade balinesa destacadas pelo autor nos mostram como há uma manuseio publico dos significados no intuito do reordenamento e/ou manutenção das relações sociais entre os indivíduos.
Com sua estratégia de pensar a cultura como um contexto (p.10), Geertz lança que a ideia de que esse sistema de classificação é corroborado pelo próprio aspecto estratificado da sociedade balinesa. É interessante perceber como Geertz vai buscando ligar os pontos das teias de significados produzidos em Bali, tateando possibilidades em que ele mesmo faz questão de dizer não serem definitivas ou inevitáveis. Sendo nome pessoal, casta, ordem de nascimento etc, são táticas de diferenciação avaliadas por Geertz, na minha opinião de modo acertado, como indícios de um todo mais complexo, que se constrói histórica e socialmente, e se materializa individualmente na delegação de valores simbólicos.

Felipe Araujo disse...


Prezadxs colegas,

existe um detalhe na releitura de Élida que gostaria de enfatizar. Em certo momento, fala-se sobre a função de uma fenomenologia da cultura, logo a seguir a resenha sintetiza esta condição de análise (dita fenomenológica) quando observa que, em certo nível de atuação, "a análise cultural lida com formas cheias de significados [...] que não estão diretamente nas coisas, nos objetos, mas lhe são impostos pelos homens que vivem em sociedade". Interessante observarmos esta espécie de "ausência" no cerne da proposta de Geertz, uma ausência, dita fenomenológica, das coisas por si. Sem pretender adentrar tais discussões, empreendidas por autores como Schütz ou Husserl, ao considerarmos que padrões culturais são instituídos, mantidos e transmitidos por indivíduos, ao considerarmos que a significação é íntima de procedimentos singulares da pessoa, tangenciamos, mesmo que indiretamente, questões de ordem fenomenológica. No entanto, cabe salientar que,apesar das semelhanças, etnografia e fenomenologia são métodos diferentes de análise. A resenha deixa isto bem claro ao colocar o Schütz como uma inspiração/orientação ao trabalho do Geertz, mas não deixa de espantar como ambas as práticas por vezes parecem estar mescladas em intenção e significado. Indico para leitura o pequeno, mas esclarecedor, texto de Johana Edith, "Etnografía e Fenomenología".

Grande abraço para todxs e bons estudos!

Telel Neto disse...

Olá, galera do Gerts!

 Parabéns, prezada Élida, pela excelente discussão e aos caros colegas por presentear-nos com discussões de tão alto nível.

 Penso que este texto é bem complexo e repleto de detalhes que exigem mais e mais leitura da minha parte.

A releitura foi interessante também no sentido de pensar o quanto o pensamento do Geertz foi/é importante para os estudos urbanos, como a formatação de aspectos teórico-metodológico.

Contudo, logo de início Geertz nos chama atenção para o conceito de cultura e estrutura social, - como destacou Élida e Frank - os quais precisam ser analisados e abordados como fatores independentes e não autossuficientes em contextos específicos, e suas influências como fatores determinantes. Assim, o autor destaca que certas noções, ideias, mesmo que indiferentemente sistematizadas guiam as atividades e o cotidiano de homens e mulheres. Neste caso, ele nos chama atenção para o estudo da cultura e os problemas intrínsecos sobre tal análise. Como todos, de alguma forma, já chamaram atenção para o cerne da questão da análise do estudo da cultura, segundo Geertz, também destaco que essa concepção de o pensamento visto como ato social desempenha um papel interessante, pois é sobre ele que os homens elaboram símbolos significantes e assim imprimem significados. Dessa forma, os estudos da cultura nos ajuda a debruçarmos sobre os elementos construtivos/relíquias de uma determinada cultura, os símbolos. E por intermédio deles é possível descrever, elucidar, problematizar etc sociedades antigas e do presente através da construção da busca de padrões culturais. Como o próprio Geertz destaca, “o caminho para as grandes abstrações da ciência se desenrola através de um emaranhado de fatos singulares”.

Abraço.